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Febre das estrelas: o beijo entre Uhura e o capitão Kirk

2006-12-22
Qual seria o efeito de um beijo, como o beijo entre Uhura e o capitão Kirk em 1968 na série Caminho das Estrelas, neste planeta Mu Arae d? Em Mu Arae d – descoberto em 2004 por um dos espectrógrafos do Observatório Europeu do Sul instalado no Chile - existem duas variantes dos Mu Araenos, não são duas raças, não apresentam coloração ou aspecto exterior diferente, no entanto uma pequena diferença genética faz com que cerca de metade da espécie tenha uma série hábitos comportamentais significativamente diferentes, nomeadamente a alimentação (se é que se pode chamar àquilo alimentação). Essas diferenças foram suficientes para criar grandes hostilidades entre os Mu Araenos, ao ponto de dividirem o planeta em dois, erguendo entre cada parte algo que se assemelha a um muro.

Em 1968, durante o episódio intitulado "Plato's Stepchildren" (Enteados de Platão) da série Caminho das Estrelas, é transmitido pela primeira vez na televisão americana um beijo entre pessoas de diferente cor de pele. Nesse episódio, Kirk (William Shatner), o capitão da nave Enterprise, beija a tenente Uhura (Nichelle Nichols). Hoje, este beijo não representaria nada de especial na televisão da esmagadora maioria dos países do nosso planeta, mas em 1968, numa época em que o racismo ainda era considerada uma prática normal em muito círculos, o beijo entre Kirk e Uhura constituiu uma decisão arrojada dos produtores da série (David Alexander, Gene Roddenberry e Meyer Dolinsky). Note-se que apesar da ousadia dos produtores, o beijo envolve um homem branco e uma mulher negra e não uma mulher branca que beija um homem negro, obviamente que as cadeias de televisão receavam a acumulação de sentimentos racistas com o machismo aquando da transmissão do primeiro beijo entre indivíduos de diferente cor de pele. E na verdade, durante a rodagem da cena, não existiu qualquer contacto entre os lábios dos actores. Apesar de tudo, este episódio mostra que emanações da ciência, como é o caso da ficção científica, podem ter um impacto que não se resume à criação de novas tecnologias, podendo contribuir também para o vanguardismo cultural e para a universalidade da espécie humana.

O realizador de cinema Spike Lee chamou Febre da Selva às relações entre indivíduos de diferente coloração de pele, no seu filme com o mesmo nome realizado em 1991. Depois do meu périplo pelo planeta Mu Arae, resta-me lamentar que não haja uma Febre das Estrelas que contamine os Mu Araenos.