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O regresso do metano marciano

2008-10-28
Há alguns anos foi anunciada a descoberta de metano na atmosfera de Marte. Graças a observações espectroscópicas, feitas a partir da Terra e de um instrumento a bordo da sonda europeia Mars Express, tinham sido reunidos indícios da presença deste gás. A notícia provocou algum alvoroço; o metano devia desaparecer na atmosfera marciana ao fim de cerca de 300 anos, e portanto algum mecanismo no próprio planeta devia estar a fornecê-lo de forma contínua à atmosfera. Uma das hipóteses era, tal como acontece na Terra, a actividade biológica…

Havia porém muitas questões, nomeadamente quanto à distribuição do gás, já que os dados da Mars Express pareciam apontar para a existência de concentrações mais elevadas nalgumas regiões do planeta (concentrações medidas na casa dos ppb, ou seja, partes por milhar de milhões…). Além disso, a mesma equipa responsável pelo PFS (Planetary Fourier Spectrometer), o instrumento da Mars Express envolvido nesta detecção, anunciou mais tarde que também detectara formaldeído e amónia na atmosfera de Marte (em proporções ainda menores). Neste caso não houve confirmação por outros instrumentos, e o assunto (muito controverso) caiu um pouco no esquecimento, arrastando também a história do metano.

Mas havia quem continuasse a trabalhar neste tema. E agora, depois de mais uns anos a adquirir e analisar dados, um cientista da NASA, Michael Mumma, prepara-se para publicar os seus resultados. Que apontam para a real presença do metano, e para uma distribuição que está longe de ser homogénea na atmosfera do planeta. Pelo contrário, parecem existir áreas muito específicas em que as concentrações podem subir até aos 60 ppb (contra os 10 ppb anunciados no passado). Além disso, o metano parece ser destruído em Marte muito mais depressa do que se admitia anteriormente – as concentrações baixam drasticamente em menos de um ano. O que também quer dizer que a taxa de produção nas regiões suspeitas é muito maior do que se pensava…


Imagem no infravermelho da zona de Marte designada por Nili Fossae obtida pelo instrumento THEMIS a bordo da Mars Odissey Mission. Créditos: NASA/JPL/ASU.
Fica ainda a questão da origem deste gás em Marte. Vulcões em actividade nunca foram detectados em Marte – o que não quer dizer que o metano não resulte de reacções envolvendo rochas vulcânicas… E quanto a micróbios no subsolo marciano, bem, essa continua a ser uma questão sem resposta. Ora o muito falado MSL (Mars Science Laboratory), o novo rover marciano da NASA – cujo lançamento continua previsto para 2009 – levará a bordo um instrumento capaz de detectar as ínfimas proporções de metano na atmosfera e de desvendar a sua origem (pela análise dos isótopos de carbono que fazem parte das moléculas de metano). Ainda por cima, uma das áreas da superfície marciana pré-seleccionadas para possível local de aterragem corresponde a uma região onde existe por vezes uma maior concentração de metano: Nili Fossae, a noroeste da bacia de Isidis, no hemisfério norte do planeta.

Na última reunião para escolha do local de aterragem, numa lista já reduzida a apenas sete candidatos, esta região ficou a meio da classificação… Mas isso foi antes desta notícia vir a público. A escolha ainda está longe de ser definitiva, e envolve não apenas questões científicas mas também de engenharia e de segurança do próprio rover. Pode muito bem portanto suceder que o “Nilo” marciano venha a receber uma visita terrestre daqui a poucos anos… e que haja marcianos à espera (mas não serão seguramente crocodilos)!

PS: Num outro desenvolvimento, começaram a surgir notícias que apontam para o adiamento do lançamento, para 2016, do rover europeu ExoMars. Apesar de não haver ainda uma decisão oficial, a próxima reunião dos ministros da ciência dos países membros da ESA, no fim de Novembro, dificilmente chegará a um acordo que permita manter o calendário de 2013. Infelizmente, o facto não surpreende. Esta missão já sofreu vários atrasos, praticamente desde que começou a ser pensada (as primeiras visões, mais optimistas, apontavam para 2009), e a comunidade científica pouco pode fazer para lá de suspirar pela oportunidade adiada…