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Asteróide Ida e a sua lua Dáctilo

Ditos

"Se não pudermos questionar as nossas mais profundas suposições, então a humanidade não é uma espécie viável. "
- David Bohm


Sensação de proximidade

2008-10-02

Antes de descobrir as diferenças, aqui importa as semelhanças. Crédito:Haff/UAA-PBG.
De uma forma genérica dizemos que os animais de grande porte costumam formar manadas, enquanto os pássaros vão em bandos. Abaixo da superfície de água os peixes preferem nadar em cardumes, nomeadamente aqueles que constam na lista da ementa de outros.

A um nível mais específico há, por exemplo, os lobos que só se sentem bem na sua pele de lobo se estiverem junto da alcateia, enquanto as ovelhas, sem lobos disfarçados de ovelha pelo meio, são tratados por rebanho.

Cães sem dono preferem substituir a solidão por uma vida em matilha, e a maioria da gente humana costuma formar grupos, bandos, tropas e multidões, seja por pouco ou muito tempo.

Na maioria dos casos, esta tendência de associativismo é resultado de instintos, tais como o da sobrevivência ou da reprodução. Noutros casos, como a Flora, com zonas de uma planta predominante, ou florestas, como uma espécie de manada de árvores, são derivados da incapacidade de deslocação das espécies em causa e do alcance dos poderes de reprodução.

Se a Natureza fez uma grande parte do mundo animado ser gregário, ou seja aglomerar-se, como é então a situação das criações da Natureza extraterrestre e inanimada, das estrelas? Estrelas, sendo apenas gigantescas bolas de gás, não pensam, nem nada sentem, portanto não há qualquer tipo de instinto de preservação ou semelhante que as possa obrigar a formar grupos. Mesmo assim, basta olhar para o céu numa noite bem escura e veremos uma data de ajuntamentos de estrelas, os quais, na gíria astronómica são designados de enxame (há quem diga aglomerado, mas é muito menos frequente).


O enxame Haffner 18 é um bom exemplo para a evolução estelar. Na parte central encontram-se estrelas já maduras. Na ponta inferior do enxame nota-se uma estrela que há pouco saiu do seu casulo o qual ainda envolve a estrela. O lado inferior direito da imagem mostra a nuvem de gás e poeiras que serve de berço e matéria-prima para estrelas por vir. Crédito: ESO.
Considerando a acima mencionada falta de vontade própria nas estrelas, o que faz as estrelas aglomerarem-se em enxames? A resposta reside na forma como as estrelas são formadas. Estrelas nascem da contracção gravitacional de nuvens de gás e de poeiras, restos de estrelas extintas. Porém, as nuvens individuais de gás são gigantescas com massa suficiente para formar centenas ou milhares de estrelas. Apesar de ser um processo bastante moroso e as estrelas não nascerem todas no mesmo momento, o impulso que faz uma parte da nuvem de gás colapsar sobre si própria, também afecta as outras zonas. O mais tardar, com as primeiras poucas estrelas nascidas a espalhar a sua forte pressão da radiação e vento estelar, outras partes da nuvem de gás são empurradas para, ou condensar em mais estrelas (uma espécie de efeito de dominó) ou dissipar de vez. Sendo a zona de uma nuvem de gás delimitada no espaço, todas as estrelas nascidas dessa nuvem formam, portanto, um grupo ou seja um enxame. Isso significa que os membros de um enxame de estrelas devem ser, de certo modo, familiares, tal como irmãos e irmãs.

Todos os enxames que se formaram desta forma levam na sua designação oficial ainda um adjectivo adicional, ou seja, o seu nome correcto é enxame aberto. Isto não quer dizer que existem enxames fechados. Mas há um outro tipo de enxame o qual dá pela designação de enxame globular. Porém, enxames globulares, uma espécie de colmeia de estrelas, em vez de abelhas, são tão peculiares em muitos aspectos, e devem ser tratados à parte.

Poder de atracção

A gravitação não só mantém uma nuvem de gás intacta como nuvem, como também é responsável pelo nascimento das estrelas dentro dela. A mesma gravitação que manteve a nuvem de gás como um todo é também responsável por manter as estrelas recém-nascidas juntas por um bom trecho de tempo cósmico.

A gravitação é uma força física, uma força de atracção, que pode ser medida e quantificada com facilidade e sua existência verificada simplesmente tirando o suporte de sustentação a um objecto (conforme o objecto convém tirar os pés fora do caminho e/ou usar capacete).

No reino da Fauna terrestre existe uma segunda força de atracção. O efeito é praticamente o mesmo como o da gravitação. Maior a força de atracção, mais gente/bicho se vai aglomerar. Porém, esta força, ao invés da gravitação, não é quantificável, nem pode ser medida. Apenas vemos os seus resultados, p.ex. nos humanos em forma de casais, famílias, grupos de amigos, grupos de interesse e clubes, e, na maior das escalas (pacíficas), estádios desportivos apetrechados.

Uma vez que o objectivo de se agrupar tenha sido alcançado ou superado, estas aglomerações tendem a dissolver-se. Como se diz, cada um vai à sua vida - literalmente.

Nisso, as estrelas não são excepção nenhuma, apesar de inanimados, desprovidos de qualquer sentimento e pensamento. Depois de terem nascido, dissolvidos os seus casulos, afastada a restante matéria que as criou, e, graças ao ligeiro desvio na grandeza do seu momento de translação próprio em relação às restantes estrelas em redor, as estrelas de um enxame afastam-se gradualmente umas das outras, libertando-se cada vez mais da força de atracção mútua. Em consequência, o enxame desfaz-se e, tal como passarinhos jovens ou os filhos adultos de um casal, as estrelas deixam o seu ninho e fazem-se a sua longa vida solitária.

Todas estas fases de existência dos enxames de estrelas podem ser vistas facilmente no nosso céu. Há enxames acabados de nascer e ainda em formação, podemos espreitar no céu enxames jovens, com as estrelas ainda muito próximas e também não faltam enxames velhos cujos membros maturaram e já se afastaram bastante uns dos outros.

Viagem pelo zoo galáctico

Se imaginamos o nosso Sol como se fosse um veículo espacial em movimento, e olharmos na direcção da constelação de Hércules, estaremos com o nariz virado no sentido da marcha. Como num passeio por um jardim zoológico galáctico, podemos ver-nos rodeados por estrelas de todas as espécies.

Hércules é uma constelação um pouco difícil de reconhecer, sendo a estrela Vega em Lira um bom ponto de referência próximo. A melhor altura de observação no início das noites é o Verão e Outono, sempre logo após o escurecer. Nessa altura Hércules fica quase no zénite.


As Plêiades ou Sete-Estrelo é um enxame jovem que ainda não afastou toda a matéria na qual nasceu. Há quem defende que o enxame apenas passa por uma nuvem de gás e já se libertou da sua própria. Crédito: UAA/CdA/FA.
À nossa volta, actualmente, incluindo também o sentido para cima e para baixo, existem algumas poucas centenas de estrelas individuais, a maioria delas anãs vermelhas, quase todas solitárias ou no máximo estrelas múltiplas. Olhando sobre o ombro esquerdo e para baixo veríamos muito perto de nós dois enxames de estrelas, se não fosse o horizonte tapar a vista. O enxame mais notório desses dois é sem dúvida o das Plêiades, ou Sete-Estrelo. Muito jovem, centenas de estrelas azuis brilhantes, seis facilmente detectáveis ao olho desarmado. Sendo um enxame jovem, as suas estrelas individuais ainda não se afastarem muito entre si, portanto ocupam um espaço bastante reduzido. Alias, o enxame é tão jovem que ainda restam alguns farrapos da nuvem que os criou. O outro é o enxame das Hiades. Este é um pouco mais velho, e por isso distingue-se claramente das Plêiades. As suas estrelas são estrelas mais maduras, e visto que nasceram há muito mais tempo, também já não estão tão próximas umas das outras. Isto vê-se nitidamente.

A época de melhor visibilidade das Plêiades e Hiades no início das noites é Novembro (a Leste), Janeiro (a Sul) até Março (a Oeste). O ponto de referência é Aldebaran, a estrela principal do Touro, estrela que parece fica mesmo a meio das Hiades (em forma de um V), mas não é parte do enxame. As Plêiades ficam um pouco mais a Oeste (direita) das Hiades, parecem-se com uma pequena nuvem difusa salpicada de pontos de luz.


A posição da nebulosa de Orionte por baixo das Três-Marias, as estrelas da cintura de Orionte, está assinalada entre duas linhas vermelhas. Crédito: UAA/CdA/MS.
Olhando sobre o ombro direito e nem longe dos enxames acima referidas fica a Nebulosa de Orionte. Toda esta nebulosa é uma das ditas nuvens que faz de matéria-prima das estrelas. Alias, mesmo a olho nu, melhor com binóculo ou telescópio, veremos a zona dessa nebulosa salpicada de estrelas, quase todas com origem na mesma nuvem de gás que ainda não se dissipou. Na parte mais luminosa central da nebulosa de Orionte encontramos um enxame de estrelas em formação, e existem nas proximidades muitos outros casulos de gás concentrado em cujo interior se acendem as fornalhas da reacção termonuclear de estrelas futuras que ainda teimam em não se mostrar.

Orionte pode ser observado facilmente durante o anoitecer dos meses de Inverno. A nebulosa fica por baixo do asterismo de estrelas conhecido na voz popular por Três-Marias.

Até se mexe!

Se tivéssemos tempo de vida e percepção visual suficiente para ver o movimento das estrelas, notaríamos, que afinal das contas, os enxames estão por todo o lado, mais perto ou mais longe. De facto, notaríamos que o Sol e com ele nós próprios, estamos de momento no meio de um enxame em movimento. Enquanto o Sol dá os seus passos de passeio, está a ser ultrapassado em todo o redor por um grupo de estrelas, tal como gente que nos passa a correr ao tentar alcançar uma camioneta quase de partida. Este enxame é facilmente visível, pois quase todas as estrelas da Ursa Maior fazem parte dele (em inglês: Ursa Major moving cluster). Mas há mais estrelas que pertencem, ou em tempos pertenceram a este enxame. Entre estas (ou talvez não) há Sírius, a estrela mais brilhante do nosso céu, ou Rasalhague (a estrela principal de Ofiúco) e mais uma centena de estrelas distribuídas sobre todo o céu, são familiares desse enxame móvel da Ursa Maior. Sendo um enxame muito maduro, os seus membros já se afastarem bastante uns dos outros, alguns até já saíram do grupo por completo.

Com o nariz virado para a popa do cruzeiro chamado Sol, há um enxame interessante à nossa esquerda, que melhor se destaca usando um bom binóculo. Este enxame de estrelas também se desloca, mas está afastado de nós. Visível a olho nu está logo ao lado e em torno (leste / esquerdo) da estrela mais brilhante da constelação de Perseu. Trata-se de um enxame que não terá uma vida próspera e longa, pois é constituído principalmente por estrelas de elevada massa, extremamente quentes. São estrelas jovens que não chegarão a ser velhas, pois devido à sua vida intensa no que respeita o gasto energético, irão morrer violentamente num prazo de poucas centenas milhões de anos. Este tipo de enxame de estrelas dá pela designação de associação OB, provindo as letras O e B das suas respectivas classes espectrais típicas desta classe de estrelas. E porquê não enxame OB em vez de associação? Porque, embora mesmo os enxames abertos mais duradouros terão de acabar um dia, só o farão depois muito tempo de existência. Os membros de uma associação OB não vive tempo suficiente para ir por uma das vias existenciais de enxame, isto é, manter-se junto ou dissolver o grupo. Por outro lado, muitas associações OB são tão próximas que não as vemos como um grupo, mas como estrelas individuais com muitas outras estrelas de fundo a meio.

Subindo desse enxame em Perseu em direcção a constelação de Cassiopeia, sensivelmente a meio do caminho, encontram-se dois enxames tão próximos no céu que são conhecidos como o enxame duplo (H e xi Perseu). Este enxame duplo requer binóculo para ser observável, mas vale bem a pena de o procurar e encontrar.

A constelação Perseu e os seus diversos enxames são melhor observados nos inícios das noites de Outubro (a Este-Nordeste), Janeiro (a Norte zénite), até Março (a Oeste-Noroeste). Como guia serve a constelação de Cassiopeia, basta descer a segunda perna do asterismo de estrelas em forma de W.

Viva o individualismo ou não?

Já agora, qual é o caso do nosso Sol? Será que faz parte de um bando de estrelas que aterroriza a vizinhança com radiação letal, ou de um grupo de estrelas que se veste todo de amarelo, ou haverá outra coisa peculiar que fará a nossa estrela membro de um qualquer clube requintado?

De acordo com os estudos existentes, o nosso Sol é de certa forma solitário, uma estrela individual. Há muito deixou para trás os arredores onde nasceu e, com isso, quaisquer eventuais estrelas irmãs e vestígios do seu ninho inicial. Alias, há entendidos que dizem, que o Sol nem sequer teve o prazer de nascer em manada. Mas após tanto tempo de existência do nosso Sol e tantas voltas dadas em torno da galáxia, isso é algo difícil de comprovar, tanto como o contrário.

Mas sabemos onde está o Sol neste momento. E podemos também imaginar, se o Sol fosse parte de um enxame que não se tivesse dissolvido, a mera proximidade das irmãs do Sol poderia ter comprometido a evolução do Sistema Solar e daquilo que apreciamos tanto no seu terceiro planeta. E claro está, sem estas condições favoráveis que temos com o nosso Sol solitário, não haveria também todos aqueles seres que gostam de se aglomerar.

Estrelas nascem muitas vezes ou mesmo maioritariamente em grupo, nós somos todos feitos de matéria estelar de estrelas extintas, não me admiro que haja portanto tanta tendência e vontade de se juntar no meio dos seres vivos. Força de atracção, seja ela medível ou não.