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"Não é possível conceber algo tão estranho e implausível que não tenha já sido dito por um ou outro filósofo."
- René Descartes


Global vs. todo o resto

2016-04-07
8.Abr.- 14.Abr.2016 (Portugal)

Este mês de abril foi declarado, algo unilateralmente pela organização Astronomers Without Borders (astrónomos sem fronteiras), o mês global da Astronomia (GAM-Global Astronomy Month). Tal iniciativa sugere que, ao longo do mês, irá haver numerosos e variados eventos coordenados, como observação pública dos astros, palestras, conferências, oficinas para miúdos e graúdos, portas abertas nos observatórios e locais onde a astronomia e associados são praticadas nas mais variadas formas e intensidade, exposições, publicações dedicadas nos jornais e revistas, festas. Atendendo a radicalização do mundo, seria até imaginável uma ou outra manifestação a favor do apoio da cultura científica, ou talvez um ou outro atentado contra lâmpadas incitantes da poluição luminosa. Tudo isso, como indica o nome, ao nível global... em todo o mundo.

Seguindo em pleno o paradigma dos astrónomos sem fronteiras, one people – one sky, juntar as pessoas - vivemos todos por baixo do mesmo céu, o primeiro evento público registado como tal para este mês da astronomia ocorre(u) na região curda no norte do Iraque (http://astronomerswithoutborders.org/event.html?id=248 ). Convém ter em mente que esta região sofre e debate-se das mais variadas repressões, devido a rejeição da cultura do povo que nela habita, por parte de todas as terras limítrofes. Além disso, numa distância equivalente a de Madrid até a costa portuguesa, uns 500 km, grassa uma das guerras mais absurdas contra a liberdade e condição humana. Apesar disso, eis que há iniciativa e empenho de fazer algo que leva as pessoas a juntarem-se a observar o céu, as estrelas e (outros) planetas. Sem doutrinas religiosas, sem fanatismo explosivo, sem ganância política ou comercial e, por isso, obviamente feito sem fundos monetários mencionáveis. Como refere Eyad Khailany de Erbil, na dita região, membro da associação de astrónomos jovens (AOYA): “Somos pobres em recursos, mas temos a paixão de aumentar a conscientização sobre a importância da astronomia entre as pessoas humildes de Curdistão”.

O que se faz por cá neste mês da astronomia em todo o globo? Se olharmos para a lista de eventos publicada pelos astrónomos sem fronteiras: no continente, nada. Só nos Açores, solo luso a meio entre dois continentes, há várias iniciativas promovidas pelo Observatório Astronómico de Santana.

Isto não quer dizer que não haja mais! Apenas aquilo que há não é coordenado ou publicado sob o mesmo acesso. Alias, existe uma certa promoção individual nisso tudo, para não dizer, cada um puxa a sardinha como melhor entende ou que pode.



Olhos para cima. O mesmo céu e estrelas para todos. Sem exames, sem licenças. Normalmente... Gratuito! Abril 2016, o mês global da astronomia, menos oficializado, continua louvavelmente o que começou com o ano internacional da astronomia, comemoração oficial pela AGNU (Nações Unidas) e similares no ano 2009. Crédito: GRM


Há assim iniciativas individuais, nem necessariamente nascidas da ideia do GAM. Por exemplo no dia 15, um amigo das estrelas, Luís Gabriel, nas bandas de Setúbal, promove uma sessão de astronomia dedicada à Lua e Júpiter, seguido de uma volta a fogueira e chá, que oxalá seja bem quentinho, na Vila Nogueira de Azeitão: https://www.facebook.com/events/1064745576925054/

No dia 30, há no Estoril/Cascais a enésima Festa das Estrelas. Uma celebração do espantoso empenho, criatividade e, jamais para esquecer, o sucesso e reconhecimento mesmo a nível internacional, das contribuições e descobertas dos alunos das nossas escolas participantes (e os seus professores e mentores) que nessa festa se apresentam. Não que seja inteiramente culpa do NUCLIO, que organiza o evento, manter uma espécie de perfil baixo em torno da festa.

Curioso e simultaneamente triste é: o mesmo que une os astrónomos e divulgadores do conhecimento sobre o universo de terras distantes, como Curdistão, o estado sem estado, ou provenientes da vizinhança quase direta da casa - paixão de partilhar e falta de dinheiro.



Muito acima do horizonte, virado para sul, por volta da meia-noite. Júpiter é fácil de detetar e distingue-se pela sua cor das estrelas mais notórias Regulo no Leão e Espiga na Virgem. Os meteoros das Virginidas ou Virginídeas parecem emanar do ponto no céu assinalado com traços. Crédito: GRM/NUCLIO


Nesta semana, para quem queira observar ou mostrar as estrelas terá em seu favor os dias após a lua nova. Pelo menos do lado da natureza o céu tenta ser bem escuro após o anoitecer. Depois ao longo do fim de semana junta-se, por pouco tempo até poisar, o fino crescente da lua. O quarto crescente dá-se na quinta-feira, dia 14. Assim, dia 12, parece ideal para ver o máximo de atividade das Virginidas. Nisso não se trata de um culto de meninas dançantes, mas sim, de uma chuva de meteoros. O ponto de origem aparente estará bem posicionado no sul por volta da meia-noite. Sob condições absolutamente ideais são, porém, apenas até 5 meteoros por hora, o que torna o fenómeno algo menos hilariante. Em todo o caso, mal que esteja noite está ai Júpiter com as suas luas por baixo da barriga do Leão. Mesmo visto com lunetas dá ideia da sua grandeza, seja em Setúbal, Lagos ou Bragança ou quase qualquer lado do mundo, se bem em horários ligeiramente diferentes.

Contacto para as crónicas sobre a atualidade celeste: ceu@astronomia.pt