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"Faça as coisas do modo mais simples que puder, mas não se limite a fazer as coisas mais simples"
- Albert Einstein


Entrevista com o grande J

2016-03-10
O nosso enviado especial aproveitou a atual oposição de Júpiter para obter uma entrevista em exclusivo. Que o papel de entrevistado-entrevistador se inverteu deve-se provavelmente a esta imponente presença.


Júpiter, o maior planeta do sistema solar, esteve em oposição no dia 8 e é destaque da atualidade celeste. Crédito: NASA/JPL
Agora que está em oposição, tem algum programa especial preparado?
Sou o deus supremo incontestado aqui no Olimpo, não um partido político. Estou em oposição a quê?

Tecnicamente está do lado oposto ao Sol visto da superfície da Terra. Filosoficamente está oposto ao seu substituto.
Ainda há gente na Terra? Há tanto tempo que não sou venerado, pensava, como é hábito dele, que o outro as tinha eliminado. Quanto ao que diz do Sol e da Terra, acho que isso não perturba os meus círculos.

Estar em oposição significa que aparece no céu ao pôr-do-sol e pode ser visto da Terra durante toda a noite. Uma oportunidade para nós o estudarmos melhor.
Ehm... para quê? Que é que há aqui para estudar? Enfim, estou cá desde a minha infância.

Os seus padrões em movimento na atmosfera são fascinantes, a dança das suas luas intrigante e a grande mancha vermelha estonteante. Há muitas incógnitas que queremos entender melhor.
Estou a ver. Agora, que as vossas noites de inverno são tão compridas, conseguem observar uma rotação inteira de mim. Certo?



Io, Europa, Ganimedes e Calisto. As 4 luas mais proeminentes de Júpiter das 67 luas conhecidas dele. Crédito: NASA/JPL


Exato. Assim, em 10 horas de noite captamos uma volta completa sua e podemos comparar a dinâmica das mudanças nas suas bandas de nuvens e as perturbações dentro delas. Alunos nas escolas podem filmar/fotografar e medir estas alterações e determinar as velocidades, estimar as massas envolvidas, compreender o conceito da rotação diferencial e muito mais.
E as minhas amantes, que é que elas têm a ver com isso?

Amantes?
Sim, mencionou as minhas luas. Quando os Gregos começaram a delirar com a suas ideias sobre democracia, matemática, física e atividades desportivas sem roupa, decidi retirar-me por algum tempo. Como Zeus senti-me um pouco envergonhado ter deixado as coisas evoluir assim. Aliás, foi aí que mudei o nome para Júpiter. Fiz-me acompanhar dos meus amantes favoritos, a minha querida princesa Europa, a lindíssima Calisto, e o belo príncipe Ganimedes, embora admito, ele fala um pouco demais. E claro, a minha favorita absoluta, a princesa Io. (Com o seu vasto campo gravítico e magnético, Júpiter massaja gentilmente a sua querida Io, a qual responde com uma violenta erupção vulcânica espontânea.)



Uma forte erupção em Io captada em 2007 pela sonda New Horizons a caminho de Plutão (onde entretanto chegou). Mais de 400 vulcões ativos salpicam a paisagem de Io. Crédito: New Horizons/NASA/JPL


As suas luas funcionam um pouco como o nosso sistema solar em ponto pequeno. Orbitam à sua volta, são ocultados por si quando passam atrás de si, projetam as suas sombras sobre si quando passam a sua frente. Isto é fantástico para estudar nas nossas escolas. Permite aos alunos entender o conceito de órbita ao vivo. Outra experiência muito interessante, considerando que é feito com meios escolares, é determinar a velocidade da luz.
Se sabe a velocidade da luz, para quê determina-la outra vez?

O importante não é valor que os alunos determinam, mas o caminho e o método. Os jovens são os adultos do futuro, serão eles os que tomam decisões e pagam as contas. O conhecimento do como o mundo funciona é fundamental para poderem tomar decisões sensatas. Para além disso, mesmo caminhando por trilhos batidos por cientistas e outros, quando é feito por um grupo e alcançado um resultado, é mais memorizável e uma sensação gratificante para cada pessoa envolvida.
(Júpiter desconfiado parece procurar algo na sua túnica branca) Falou de uma mancha... qual mancha? Sou um deus, aliás SOU o deus supremo, não ando com manchas!

Há mais de 300 anos observamos nas suas bandas de nuvens uma tempestade ciclónica que permite uma vista para a camada de atmosfera interior. Tem quase o dobro do tamanho da Terra toda e por vezes torna-se fortemente colorida de vermelho acastanhado. Recentemente (em 2000) apareceu uma mancha pequena com características semelhantes que está em crescimento. Seguir a sua evolução é intrigante.
Conseguem ver o meu interior? Ó meu eu! Não quero que façam isso, parem já. Proíbo-vos de estudar o meu interior. Ai que raiva! Atrevidos! Esmago-vos, tal como fiz aquela coisa estranha que tentou penetrar-me há pouco mais de um ano. (Nota: 1 ano joviano dura 11,8 anos terrestres, presume-se que ele se refere à sonda Galileo)



A maior tempestade conhecida em qualquer lado é chamada a grande mancha vermelha. Perdeu intensidade de cor ao longo das últimas décadas, mas não perdeu em dinâmica, nem em fascínio. Crédito: Voyager/NASA


Talvez seja melhor terminarmos por aqui. Gostaria transmitir alguma mensagem aos nossos leitores?
Um simpatizante do meu tempo áureo, acho que se chamava Platão, leu-me uma história dum dos seus livros, uma alegoria sobre uma caverna. Deviam pensar sobre essa história, pois a mim parece-me, que o grosso da humanidade voltou para o ponto de partida da história e prefere lá ficar. TERRAQUEOS! Ainda me dói a barriga ao ter apanhado o cometa que ia a caminho do Sol. Grande cabeçada essa foi. (Nota: cometa Shoemaker-Levy 9 em 1994) Se continuam assim, acho, vou deixar de vos proteger.

Muito obrigado pelo seu tempo.

Contacto para as crónicas sobre a atualidade celeste: ceu@astronomia.pt