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NGC 2903

Ditos

"Eu não temo os computadores, temo não possuí-los."
- Isaac Asimov


Stardust@Home

2006-01-26
O que é isto?





Chama-se aerogel, e é uma forma extremamente leve de dióxido de silício. É resistente ao calor, relativamente barato, e pode ser usado, por exemplo, para capturar partículas ejectadas de um cometa caso se vá a passar realmente perto de um.

Hei, a Nasa não acabou de fazer isso?

Muito astuto da tua parte. Sim, eles fizeram isso, e o aerogel foi usado para apanhar parte daquilo de que os cometas são feitos. As partículas vindas do cometa embateram no aerogel preso pela sonda Stardust enquanto esta passava pelo cometa, foram delicadamente desaceleradas devido à estranha natureza gel, e finalmente pararam dentro da espuma.

Agora que a Stardust regressou à Terra, os cientistas podem investigar as entranhas de um cometa a partir do conforto dos seus laboratórios, partindo do princípio que os laboratórios são confortáveis.

Milhares de pedaços de cometa chocaram com o aerogel, e achas que os cientistas ficariam satisfeitos com isso. Obviamente que não conheces muitos cientistas! Foi calculado que escondidas no meio destas partículas estão uma mão cheia de (bom, neste caso esta palavra engana, a não ser que fosse a mão de uma bactéria) de verdadeiros grãos de poeira interestelar; partículas de estrelas distantes que flutuam pelo Sistema Solar. Eles calcularam que poderão haver cerca de 50 grãos de poeira no aerogel. Sim, 50. Ao todo. Não são muitos. Os cientistas gostariam muito de os estudar. Mas como é que os vão encontrar?

É aqui que tu entras. Os cientistas da Stardust criaram um "microscópio virtual", um microscópio automático que irá varrer o aerogel tirando fotografias. Levaria a uma pessoa 30 000 horas a ver todas as imagens... ou 3000 pessoas dez horas. Então porque não deixar milhares de pessoas espreitar as imagens?

A equipa da Stardust decidiu fazer isso mesmo. Eles irão treinar voluntários para pesquisar as imagens, procurando os invasores interestelares. Este projecto começará em Março, e estão à procura de voluntários. Aposto que alguns dos meus leitores se irão candidatar. Se for o caso, digam que fui eu quem vos enviou!

Hmmm, ainda não acabei. Quero falar mais um pouco sobre o aerogel.

Foi certificado como o sólido mais leve pelo Guiness, que eu sempre pensei que fosse uma fábrica de cerveja.

Tendo 3 miligramas/cc, o aerogel é muito rarefeito; a água é 300 vezes mais densa. Um métro cúbico de aerogel pesaria apenas 3 quilogramas, menos que, por exemplo, o meu gato. Já agora, um metro cúbico de água pesa uma tonelada.

Acabei por ficar com algum aerogel quando um fã do Bad Astronomy, que por acaso teve acesso a algum, me enviou uma pequena amostra há vários anos atrás, logo a seguir ao lançamento da Stardust. É uma coisa mesmo, mesmo estranha. O pedaço que ele me enviou foi uma placa de 6 x 8 x 1 centímetros, e que por isso pesa cerca de 144 miligramas, ou 0.144 gramas. Não consigo transmitir-vos o quão estranho é segurar algo que vocês sabem que está ali, mas que é impossível sentir o seu peso. É mesmo como se fosse fumo sólido.

Aqui está outra fotografia que tirei:





Esta fotografia foi tirada alguns segundos após ter deixado cair a placa no meu pátio das traseiras, e a ter despedaçado.

Às vezes sou um bronco (e ainda por cima aquilo é extremamente frágil). Mesmo assim, reparem na maneira como parece azul, mas projecta uma sombra vermelha. Mais estranheza. O gel claramente refracta a luz azul, deixando o vermelho passar, como faz a nossa atmosfera, e por isso o céu é azul, e o pôr-do-Sol vermelho.

Fui capaz de apanhar e recuperar a maior parte dos pedaços (com muito cuidado; fui avisado que se desfaz e pode deixar micro-farpas na pele).

Outra coisa mesmo estranha: quando os agarrei com a tenaz, aquilo fez um som mesmo estranho, como uma campainha ou algo a raspar com um som agudo.

Não consigo mesmo descrever. Este material é simplesmente bizarro, e muito fixe. Tenho de arranjar maneira de o expôr em minha casa - mas também tenho de o fazer de modo a mantê-lo longe de mim.


Tradução de José Raeiro. Artigo Original: http://www.badastronomy.com/bablog/2006/01/15/i-meant-stardust-home/