Um dos momentos mais sentimentais das missões à Lua consistiu no nascer da Terra por detrás do nosso satélite. Imagem da missão Apollo 11, NASA
Todas as manhãs, o negro da noite é substituído pelo céu azul e luminoso. A escuridão, associada a eventos negativos e à face negativa da natureza humana, é substituída pela luz, tida como fonte de sentimentos e acontecimentos positivos. Deslocamo-nos então para os nossos postos de trabalho, bem no centro do Mundo que conhecemos, e aí passamos o resto do dia, fazendo uso dos conhecimentos que adquirimos ao longo da nossa vida de forma a resolver as situações que se nos deparam. Por vezes, temos a oportunidade de alargar as fronteiras do 'nosso' mundo conhecido através de viagens a novos locais, onde encontramos outras gentes e outras culturas, ficando pontualmente extasiados com a beleza que nunca julgávamos vir a encontrar, ou sequer que fosse possível existir. Mas poucas vezes nos dedicamos a apreciar o real tamanho do Mundo, ou a perspectiva esmagadora da sua dimensão poder ser infinita. O nosso dia-a-dia limita-nos a tomar decisões com base em dados concretos, educando-nos noutro sentido.

O tamanho do Mundo é, sem dúvida, uma medida que varia de acordo com a vastidão e a diversidade dos locais conhecidos por cada um. Mas a ideia que todos temos sobre a posição do planeta em que vivemos dentro de um Universo maior, essa é comum: a Terra está no centro do Universo. Ou, mais verdadeiro ainda, Eu estou no centro do Universo. Muitas vezes ao longo da história esse argumento foi tomado literalmente, quando nada mais é que a verdade do espírito do indivíduo.

A perspectiva do indivíduo depende sempre do ponto de observação. Existe uma tendência natural para qualificarmos as pessoas como fazendo parte dos grupos 'nós' ou 'eles', e os objectos como 'meus', 'nossos' e 'dos outros', o que ao longo da História provocou e ainda provoca um sem número de conflitos. A maior parte ocorre dentro de círculos restritos de pessoas; outros, entre círculos maiores (por exemplo etnias ou religiões diferentes). Mas em determinados momentos ocorrem conflitos entre países e mesmo conjuntos de países: põe-se então a questão sobre se estamos melhor ou pior que noutras épocas.

É irónico que a primeira perspectiva global da Terra tenha sido obtida em pleno confronto entre dois grandes blocos. Mas poucos duvidam que tenha contribuído para uma aproximação entre os dois lados (o que é um pouco redutor, pois que contribuiu sobretudo para a aproximação de toda a humanidade). É que, da mesma maneira que uma perspectiva de horizontes limitados pode originar guerras entre duas facções, o acesso a novas perspectivas mais amplas pode proporcionar um sentimento de identidade comum.

Do espaço as fronteiras entre países não são observáveis. A Terra é uma só. Foi fácil de ignorar, ou mesmo combater a existência deste facto, ao longo de séculos, mas é impossível rejeitá-lo perante uma imagem como a que é apresentada. Durante as viagens tripuladas à Lua, alguns astronautas identificaram o nascer da Terra como o momento mais marcante da sua aventura. E a partir de pontos muito mais afastados do que a Lua, com a Terra a diminuir de tamanho para se tornar apenas outro ponto no espaço infinito, a nossa existência adquire um significado ainda mais peculiar.


Os Descobrimentos, a comunicação a nível global e a Conquista do Espaço

Este ponto é aqui. É a nossa casa. Somos nós, numa imagem tirada a partir de 6 mil milhões de quilómetros da Terra pela sonda Voyager 1. Imagem NASA
A época dos descobrimentos, na qual Portugal teve um papel pioneiro, demonstrou que era possível encurtar as distâncias em todo o planeta através dos mares, provando que a Terra era redonda. Do contacto entre as culturas espalhadas pelo Mundo beneficiaram diversos povos um pouco por todo o mundo, embora outros tantos tenham sofrido consequências amargas dessa experiência, sendo inclusivamente levados por vezes à extinção. Com o advento das viagens aéreas, e a perspectiva da tecnologia nos poder vir a permitir no futuro uma ainda maior proximidade entre quaisquer dois pontos à face da Terra, têm-se tornado cada vez mais evidentes as diferenças entre o grande conforto da sociedade ocidental e a extrema pobreza da generalidade do resto do mundo - e a falta de razões objectivas que justifiquem estas diferenças, aparte o desejo de poder, o egoísmo e a comum falta de sabedoria humanas.

Mas passámos também a ter maior facilidade em dialogar e tomar decisões com impacto a nível global. A conquista do espaço permitiu, através dos satélites de telecomunicações, facilidades na transmissão de informação, levando ao surgimento de canais noticiosos de âmbito global (muito embora a representatividade das notícias emitidas deixe por vezes algo a desejar!). Em pleno processo de amadurecimento desta nova era, o surgimento da Internet, que constitui a maior revolução da História no capítulo da Comunicação, alterou por completo a forma como o mundo se vê a si próprio. Mais importante que o contacto entre duas partes em confronto, a possibilidade de cada um de nós obter informação relativa a ambas as partes de um conflito é uma vitória do nosso tempo, que apenas se tornou inevitável com a conquista do espaço.

Hoje na posse de instrumentos capazes de nos informar sobre as desigualdades existentes, assim como os efeitos da nossa actividade no ambiente à escala global, vastos sectores da sociedade aprenderam a clamar pela justiça sem fronteiras, a fazer chegar a todo o mundo as informações que antes eram passíveis de ser escondidas de acordo com as vontades de elites, a organizarem-se em reuniões com a participação de representantes de uma larga maioria dos cidadãos, e a questionarem, em alto e bom som, as regras impostas e as acções feitas em nome de interesses pouco representativos à escala da humanidade.

Hoje, o diagnóstico das nossas acções é feito a partir de ou transmitido através do espaço, e exige respostas verificáveis a partir do espaço, de onde a perspectiva é global. Mesmo com uma única super-potência, a pluralidade de opiniões é hoje bem superior ao que terá sido ao longo de qualquer fase da história. E muitos dos cidadãos que ontem se identificavam com interesses nacionais, hoje apoiam abertamente soluções que vão contra esses interesses por não se identificarem com os seus efeitos globais.

Um bom exemplo são as conversas recorrentes em grandes conferências, ou em encontros de jovens a nível global, sobre a militarização do espaço, o proteccionismo do mundo ocidental em relação aos seus produtos, o paralelismo entre a educação e a riqueza, ou o unilateralismo de alguns que paralisa as iniciativas de tantos outros. Se tomarmos as pessoas presentes como representando as opiniões das populações dos seus países, chegamos à conclusão que, como princípio, a esmagadora maioria está contra a militarização do espaço, a favor de uma abolição progressiva do proteccionismo dado à comercialização de produtos de um punhado de países, a favor do estabelecimento de uma estratégia global de educação que tenha em conta as diferenças culturais, étnicas e religiosas dos países do mundo, e contra a obediência canina à vontade de quem representa uma percentagem mínima da humanidade (embora a aplicabilidade prática de tais princípios dê azo posteriormente a discussões virtualmente intermináveis!).

Os sinais emanados pela sociedade e analisados por cada um de nós, sendo provenientes de um número de fontes comum, têm hoje muitos elementos semelhantes, o que permite possibilidades de diálogo nunca antes imaginadas, assim como movimentos globais que atravessam todos os traços de diferenciação que possam existir entre cada um e o seu próximo.
É que um sentimento de unidade provém essencialmente de uma partilha de ideais comuns. E as imagens difundidas pelos média para toda a humanidade, através dos meios de telecomunicações existentes, são essencialmente as mesmas, transmitem uma mesma mensagem subliminar, e deixam em aberto o mesmo tipo de soluções.


O Espaço no caminho do futuro

Novas aplicações em satélites de telecomunicações, como as transmissões por laser demonstradas pelo satélite europeu Artemis, permitirão um novo salto na globalização da informação. Imagem ESA
Actualmente, o maior projecto de cooperação internacional é a Estação Espacial Internacional (ISS). Embora uma ideia originária da presidência Reagan dos Estados Unidos nos anos 80, o projecto da ISS é, só por si, um símbolo do que os países devem e podem fazer em conjunto (às vezes também é um bom o exemplo do que não se deve fazer... mas isso são contas de outro rosário!). A ISS é um esboço do que poderá ser o futuro da humanidade no espaço, através de sucessivas bases cada vez mais longe do nosso berço (primeiro a Lua, depois possivelmente os pontos lagrangeanos em que as forças da Terra e do Sol ou da Terra e da Lua se equilibram, e mais tarde Marte). Por ser um palco por excelência, em que cada problema é amplificado e difundido pelos meios de comunicação de todo o mundo, ficam expostos os problemas que ainda hoje envolvem o contacto entre culturas, e nomeadamente as dificuldades de comunicação e a incapacidade de evitar conflitos entre as partes quando estas têm pesos desiguais num grande projecto. Mas que, de uma só vez, a exploração do espaço e a melhoria das condições no nosso planeta sejam constituídas num só projecto internacional, isso é algo que nos deveria encher de orgulho.

A ISS está hoje suficientemente solidificada para que muitos outros potenciais parceiros vejam a sua participação no projecto como uma motivação para elevar o seu orgulho próprio. A partilha dos objectivos da ISS, por si só, é hoje sem dúvida nobre o suficiente para justificar essa vontade de contribuir para o projecto, e muitos se poderão até questionar hoje sobre porque razão um grande país como a China não participa no projecto, quando há 10 anos atrás se questionavam sobre se seria sequer possível a cooperação internacional em obra tão complexa. Isto é uma vitória não do projecto ISS em si, mas do mundo como um todo.

Para viagens a outros corpos a estação espacial internacional será sempre vista como uma base intermédia, e como um marco histórico na cooperação internacional para o benefício da Humanidade. Imagem NASA
Apesar da cooperação internacional ter tido a virtude, ao longo dos últimos anos de nos permitir dar passos mais firmes no sentido do progresso científico (através de projectos, para além da ISS, como o Genoma Humano, a constituição da Agência Espacial Europeia e a construção do acelerador de partículas mais avançado do mundo, o CERN), não se julgue a competição na exploração espacial estará a ver os seus últimos dias. As missões que estão neste momento planeadas separadamente pelo Japão, China, Índia, Estados Unidos e Europa para a exploração da Lua para ter lugar antes do fim da década são prova de que começou uma nova a corrida para a exploração do espaço. Para cada um destes blocos, a exploração espacial tornou-se fundamental como motor de desenvolvimento tecnológico, substituindo mesmo por vezes o sector da defesa nesse capítulo (o que é especialmente evidente no caso do Japão e da Europa).

O espaço é hoje, para além de fonte de disputas internacionais, uma fonte importante de progresso técnico a nível global. Os conhecimentos adquiridos na área aeroespacial não são necessariamente um luxo, podendo-se constituir como uma medida do estado de evolução de uma sociedade, dos conhecimentos e experiência técnica acumulados, e da competitividade da sua economia. E essa é uma outra contribuição impossível de ignorar no mundo de hoje, em que o conhecimento ocupa um lugar de destaque na distribuição das relações entre os países.

É admirável que a exploração do espaço nos seja capaz de inspirar tanto quanto nos ajuda a progredir! E que nos force a olhar uns para os outros, estimule a competição saudável e a cooperação a nível global, para que possamos atingir objectivos maiores.