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- Thomas A. Edison


Universos Paralelos: Realidade ou ficção?

2006-07-13
Há uns anos surgiu nos melhores cinemas de Europa (como diz a publicidade) "O Único" ("The One", 2001) onde o astro oriental Jet Li desafiava as leis da física e da lógica lutando com ele próprio em múltiplos universos (125 para sermos precisos). Depois de assistir à projecção discutia com a minha amiga Júlia o realismo desta história (apesar da mensagem final que dizia que qualquer semelhança com a realidade era pura coincidência).

Se definirmos o Universo como o domínio do espaço e do tempo que os astrónomos podem observar, é lícito supor a existência de outros Universos, diferentes em tamanhos, conteúdo, dimensões e eventualmente com leis diferentes que os governam.

No filme há 125 universos cuja evolução e história são diferentes. Embora não fique claro, é possível que estes universos paralelos se inspirem numa interpretação particular da mecânica quântica conhecida como a teoria dos "Muitos Mundos". O escritor Olaf Stapleton no seu livro "O fazedor de estrelas" prefigurou assim esta teoria: "Quando uma criatura se encontra com vários possíveis percursos toma todos eles criando, deste jeito, diferentes histórias do Cosmos”. No entanto estes Universos são, por enquanto, fruto da especulação física para resolver certos paradoxos da teoria quântica e não têm nenhuma base para existirem realmente.

O meio de transporte entre os Universos que nos apresenta o filme é o buraco negro. Um buraco negro é um objecto tão denso que nada, nem mesmo a luz, pode escapar dele. Contudo, dentro do terreno da especulação teórica, um objecto da mesma família, conhecido como buraco de minhoca, poderia levar-nos a outros cantos do Universo. Isto depois de termos resolvido certos problemas técnicos.

É interessante neste momento salientar que para os astrónomos existem dois tipos de Universo: o observável ou tudo o que está em contacto connosco, e o Universo como tudo ou aquilo que tem estado, estará ou poderá estar em contacto causal connosco. A esfera de contacto causal cresce com a velocidade da luz. Mesmo se não existisse um limite ao cosmos que podemos observar dado pelas limitações técnicas das nossas ferramentas de observação, haveria uma fronteira impossível de ultrapassar: O limite absoluto observável é o horizonte definido pela distância que qualquer sinal, viajando à velocidade da luz, tem percorrido desde o momento da Grande Explosão (Big Bang). Se o Universo está a desacelerar, será possível observarmos mais e mais galáxias no futuro. No entanto, se tal como hoje pensamos, moramos num Universo que está acelerando a sua expansão, existirão galáxias tão longínquas que a sua luz não tem chegado, nem chegará no futuro, a nós. No certo modo, estamos a falar dum outro Universo ao qual nunca teremos acesso.

Na fronteira da astrofísica, alguns teóricos especulam sobre múltiplos Big Bangs, em zonas do espaço-tempo inacessíveis umas às outras. Astrofísicos ainda mais ousados têm sugerido que novos Universos poderiam ser criados no interior dos buracos negros, pela sua natureza um domínio do espaço-tempo inacessível a nós. A ideia de múltiplos universos é também um bom argumento para explicar porque o Cosmos tem parâmetros físicos tão ajustados para a vida humana. Alguns especulam sobre infinitos universos, cada um com diferentes leis físicas, e só uma fracção muito pequena onde as condições são tais que permitem a existência de seres como nós que se maravilhem ante a sua existência.

Que quer dizer isto? Que mesmo o argumento mais maluco de Hollywood fica curto ante as coisas possíveis na natureza. Nas palavras de Hamlet: "Há mais coisas no Céu e na Terra, Horácio, que as sonhadas pela tua filosofia".


Tradução de Cristina Zurita.
Héctor Castañeda é astrónomo no Instituto de Astrofísica das Canárias e mantém um site internet com informação em castelhano.