Adaptação às Alterações Climáticas em Portugal


Agora que já observámos um pouco melhor os cenários futuros e os potenciais impactos das Alterações Climáticas em Portugal, vamos esta semana tentar introduzir a temática da adaptação a estes impactos e alterações.

Na primeira introdução a este tema do mês salientei que “a nossa estratégia enquanto humanidade passou sempre por adaptar o ambiente envolvente às nossas necessidades”. No entanto, foi precisamente esta estratégia (e.g. o consumo energético voraz e a emissão de GEE como base do nosso desenvolvimento) que nos torna agora, enquanto sociedades, vulneráveis aos desequilíbrios e potenciais impactos decorrentes das alterações climáticas.


Figura 1 – Vulnerabilidade global às alterações climáticas em termos agro-económicos (i.e. variações no PIB como consequência de alterações na produção agrícola). Créditos: [7].
É pois curioso como, ao virar do milénio, nós defrontamos com a necessidade de começar a pensar em estratégias de adaptação a um problema que, apesar das incertezas ainda existentes, tem o cunho muito pessoal da humanidade e das gerações que nos precederam.

Cinco conceitos fundamentais [1] enquadram geralmente as potenciais estratégias e medidas de adaptação aos impactos das Alterações Climáticas a nível global, mas igualmente para o caso português:

Adaptação – Ajustamento nos sistemas naturais ou humanos, em resposta a estímulos (ou efeitos) climáticos actuais ou previstos, que possa minimizar efeitos adversos ou explorar oportunidades benéficas. Diferentes tipos de adaptação podem ser definidos incluindo a adaptação preventiva ou reactiva, a adaptação pública ou privada, e a adaptação autónoma ou planeada.

Capacidade Adaptativa – O potencial que um determinado sistema possui de se ajustar às alterações climáticas (incluindo a variabilidade e os extremos climáticos), minimizar os potenciais impactos, tirar partido das oportunidades ou lidar com as consequências.

ResiliênciaQuantidade de alterações que um dado sistema pode acarretar sem modificar o seu estado prévio.

Sensibilidade – Grau com que um sistema é afectado (adversamente ou positivamente) pelos estímulos climáticos.

Vulnerabilidade – Grau com que um dado sistema é susceptível (ou incapaz de lidar com) os efeitos adversos das alterações climáticas. A vulnerabilidade é função do tipo, magnitude e taxa das alterações climáticas a que esse sistema é exposto, bem como da sua sensibilidade e capacidade adaptativa.

Torna-se assim claro que além da definição dos potenciais impactos das Alterações Climáticas sobre, por exemplo, um determinado sector socio-económico é igualmente necessário procurar avaliar de que forma esse sector (ou a região onde este é analisado) é vulnerável aos impactos previstos.

Relativamente a Portugal, os projectos SIAM II e CLIMAAT II (ver semana anterior) apresentaram de forma sectorial alguns exemplos do que se poderá esperar em termos de medidas de adaptação para o continente e para a Região Autónoma da Madeira (RAM). De forma resumida podemos então salientar entre outras, as seguintes medidas:

Recursos Hídricos

Procura de água: melhoria da eficiência da utilização da água (abastecimento à população e sector agrícola); aplicação de um regime financeiro que promova um uso racional da água. Oferta de água: incremento da capacidade de armazenamento; eventual aumento da percentagem de necessidades satisfeitas por água dessalinizada (se a tendência de redução de custos desta tecnologia se mantiver).

Agricultura

Ajustamento das datas das práticas agrícolas (e.g. fertilizações, mobilizações, regas, podas) reduzindo os riscos de danos nas culturas e maximizando a produção em função das novas condições climáticas; utilização de variedades mais aptas às novas condições climáticas; modernização das práticas agrícolas e aumento da eficiência de uso dos factores de produção.

Florestas

Estabelecimento de programas de investigação sobre o funcionamento dos ecossistemas; fomento da utilização de espécies indígenas para a floresta de produção (madeira de qualidade); maior rigor na escolha de espécies e proveniências exóticas; programas de melhoramento para as espécies-chave a serem utilizadas em florestação; medidas preventivas contra incêndios florestais nas zonas mais susceptíveis.

Biodiversidade

Revisão dos objectivos de conservação de modo a entrarem em linha de conta com o impacte das alterações climáticas; esforços de conservação redireccionados para a concretização a nível regional.

Energia

Melhoramentos na rede de transporte em alta tensão e rede de distribuição em baixa tensão; vulgarização de micro-redes com produção distribuída (e.g. cogeração, micro-geração convencional ou com pilhas de combustível, sistemas solares); opções clássicas como sombreamento e isolamento adicional; opções de alta tecnologia como tintas fotosensíveis, janelas inteligentes e domótica; soluções urbanísticas para redução da ilha de calor urbana.

Saúde Humana

Sensibilização dos profissionais de saúde e dos meios de comunicação social para os potenciais impactos sobre a saúde; programas de monitorização de parasitas, vectores e roedores, associados a programas de vigilância epidemiológica; realização regular de estudos de resistência dos parasitas/vectores aos fármacos disponíveis (salvaguarda de programas de controlo).

Turismo (apenas RAM)

Elaboração de planos transitórios de marketing diferenciado por tipo de mercado emissor; desenvolvimento de programas de informação dirigidos às populações, turistas e agentes da indústria turística sobre questões relativas ao stress térmico; criação de incentivos de estimulo ao planeamento urbano a promoção de conforto no exterior; antecipar medidas já em planeamento e com potencial efeito negativo sobre a região (e.g. aumento de taxas sobre a aviação), especializando e alertando os agentes de oferta turística.

Mas qual será a real necessidade de todas estas medidas? Deveremos começar já a definir quais as medidas a aplicar para cenários de final de século? Ou poderemos adiá-las? Neste último caso, quando deveremos então colocá-las em prática, e de que forma devem estas ser planeadas?

Em relação à sua aplicabilidade não poderá deixar de ser tido em consideração que diferentes sectores e regiões apresentarão, no futuro, diferentes graus de vulnerabilidade e, consequentemente diferentes necessidades adaptativas aos impactos das Alterações Climáticas.

Outra questão prende-se com a necessidade de promover estratégias integradas de adaptação uma vez que, tal como em relação aos impactos, cada sector socio-económico não se comporta de forma estanque. Por essa razão, torna-se necessário promover, rapidamente, o planeamento conjunto e integrado, de forma a desenvolver a capacidade adaptativa a uma escala maior (e.g. nacional).

Seja através de planos de coordenação de adaptação para instituições do sector público, como no caso espanhol [2], ou em estratégias de governação regional, como no caso de um município Inglês [3], a adaptação às Alterações Climáticas é já uma realidade que está a ser pensada e planeada. O caso Finlandês é um exemplo disso mesmo, uma vez que neste país existe já uma estratégia nacional de adaptação às Alterações Climáticas [4].

Em Portugal existem já planos sectoriais de adaptação preventiva aos impactos das Alterações Climáticas, como no caso da Saúde Humana [5], ou mesmo de adaptação indirecta por via de regulamentações, como são um exemplo concreto os novos regulamentos de edificação [6].

No entanto, Portugal está ainda a dar os primeiros passos no sentido de generalizar a ideia da necessidade adaptativa a esta nova problemática, em todas as suas vertentes (e.g. pública, preventiva). Estes passos deverão, obviamente, passar sempre por um reconhecimento sério e pela investigação efectiva da vulnerabilidade aos impactos das Alterações Climáticas no nosso país.

Espero que as informações aqui apresentadas ao logo destas semanas tenham sido de utilidade e interesse, e aproveito para agradecer ao Portal do Astrónomo o convite para a elaboração deste Tema do Mês.

Referências

[1] http://www.ipcc.ch/pub/syrgloss.pdf

[2] http://www.mma.es/portal/secciones/cambio_climatico/areas_tematicas/impactos_cc/pnacc.htm

[3] http://www.woking.gov.uk/environment/climatechangestrategy

[4] http://www.mmm.fi/en/index/ministry/press_releases/070419_ipcc.html

[5] http://www.dgs.pt/upload/membro.id/ficheiros/i008675.pdf

[6] http://www.dre.pt/pdfgratis/2006/04/067A00.pdf

[7] Scientific Expert Group on Climate Change (2007) Confronting Climate Change: Avoiding the Unmanageable and Managing the Unavoidable [Rosina M. Bierbaum, R., Holdren, J., MacCracken, M., Moss, R. and Raven, P. (eds.)]. Report prepared for the United Nations Commission on Sustainable Development. Sigma Xi, Research Triangle Park, NC, and the United Nations Foundation, Washington DC, 144 pp.