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Asteróide Ida e a sua lua Dáctilo

Ditos

"Se não falhar de vez em quando, isso é um sinal de que não está a fazer nada de muito inovador. "
- Woody Allen


Viver com uma estrela

2008-04-05

Um simples campo de estrelas. Imagem do autor.
Quando eu era ainda adolescente, queria saber qual era o conhecimento que as pessoas tinham sobre os astros. Fiz um pequeno questionário e, com a ajuda de alguns amigos, perguntámos às pessoas que passeavam ou faziam as suas compras nas ruas no centro da cidade. Mais de 500 questionários ficaram preenchidos.

Por entre muitas coisas curiosas, o que mais espanto me causou, foi que quase metade das pessoas achava que as estrelas se situavam logo por detrás da Lua, e o seu tamanho real correspondia sensivelmente ao de uma laranja.

Naquela altura, a Astronomia não fazia parte do currículo escolar, e compreendo que isto pode ter contribuído consideravelmente para tal disparatada divergência entre a realidade e o conhecimento do cidadão normal.

É certo que ensinar os conceitos básicos da Astronomia nas escolas pode não ter impacto nenhum para a vida das pessoas. Sem dúvida todos os que foram inquiridos, e todos os outros também, passaram e passam a sua vida lindamente, tanto fazendo se as estrelas são laranjas iluminadas ou bolas gigantes de plasma super-aquecido com milhões de quilómetros de diâmetro.

Felizmente, em Portugal, a Astronomia foi outra vez incorporada no ensino escolar. Aliás, até está presente várias vezes ao longo dos anos do percurso de aluno. Hoje em dia, pelo menos nas terras portuguesas, quase todos os jovens sabem o que são as estrelas e o Sol, sabem que são diferentes dos planetas, conhecem por alto os conceitos das órbitas planetárias, sabem o que são galáxias, e aqueles que vão mesmo até o fim da carreira escolar, até sabem um pouco sobre o que faz as estrelas serem realmente estrelas.

A não ser que um asteróide ou cometa desviado venha em rota de colisão com a Terra, provavelmente a maioria deles também nunca mais na sua vida futura se precisa confrontar com seja o que for de foro astronómico. Todavia, este conhecimento, mesmo que só seja latente, não é um desperdício de neurónios. Bem pelo contrário.

A Astronomia é uma das ciências que mais se intercala com outras disciplinas. Quase se pode dizer, que qualquer coisa que nós encontramos no mundo actual tem alguma vertente ou associação astronómica. Ou seja, se conhecemos o que move o Universo, podemos facilmente deduzir o que mexe em nosso redor.

Os planetas movem-se em torno do Sol seguindo as mesmas leis de física que, num jogo de crianças, os berlindes rolam para o buraco do vencedor. O clima da Terra, e especialmente naquilo em que se pode transformar, observamos numa escala extrema, nos nossos dois planetas vizinhos Vénus e Marte. A própria vida na Terra afinal não se rege exclusivamente pela energia solar. Descobrimos uma vasta fauna de extremófilos cujo habitat preferido seria fatal para qualquer ser humano. Porém, tal habitat pode ser perfeitamente confortável, para os ditos extremófilos, num qualquer outro planeta ou numa das luas dos planetas gigantes. E, na falta de uma associação directa com os astros, em último caso basta ter em mente, que somos todos, mesmo todos, feitos de mais de 90% de poeira e material de estrelas que morreram há muito.

A mim agrada a simples ideia, que a ponta do meu dedo já esteve envolvida numa supernova, e acho literalmente piada, que o flúor na minha pasta de dentes não foi produzido por uma qualquer empresa de agentes químicos, mas sim, cozida nas camadas intermédias de uma estrela moribunda. Estrela, por sinal, muito semelhante ao nosso Sol. Quando o Sol um dia dará o seu último suspiro, largando as suas camadas exteriores para o espaço, não só irá oferecer uma vista linda aos telescópios de qualquer espécie de seres num outro sistema planetário, como também irá fornecer a matéria prima de prevenção de cáries para os seres que possam surgir num planeta de uma estrela que irá nascer, em parte, das cinzas deixadas pelo nosso Sol num futuro distante.

Sabendo da nossa condição cósmica, ou mesmo só galáctica, é algo que deveria fazer muito mais parte da consciência humana. Talvez assim podessemos viver melhor integrados com os outros seres na Terra, tratar melhor do nosso próprio planeta, apreciar muito mais a Natureza em si, do que investir o tempo de vida e uma grande parte da nossa energia mental e física em superficialidades.

Olhar para o nosso Sol


Superfície solar. Crédito: L.Carreira/UAA.
Normalmente não é preciso dizer, mas para não deixar dúvida nenhuma: o Sol é uma estrela. Por entre todas as estrelas que há na nossa galáxia, a Via Láctea, sejam elas grandes ou pequenas, quentes ou não tão quentes, grandes ou gigantescas, calmas ou inquietas, saiu-nos na rifa uma que é considerada uma estrela anã, não muito quente, tranquila, com tempo de vida útil médio, solitária (visto que não pertence a nenhum enxame de estrelas, nem a um sistema múltiplo), e a qual, por sinal e acaso, se encontra a uma distância confortável para a vida na Terra puder evoluir e assim apreciá-la.

Em tempos remotos, o Sol foi encarado como um deus, por vezes como vários deuses (p.ex., o da manhã e o da tarde, e, devido aos eclipses, o da mutação), mais tarde passou a ser encarado como uma espécie de planeta incandescente, e mesmo após da descoberta do telescópio ainda não ficou bem assegurado o estatuto de estrela normal. E isso é compreensível, pois o Sol só se vê de dia, as estrelas tipicamente só de noite, e comparados não parecem minimamente semelhantes.

As estrelas estão todas a distâncias terrivelmente grandes. Mesmo com os maiores telescópios do mundo jamais conseguiremos olhar para a sua superfície. Excepto no caso do Sol. Embora mais de 149 milhões de quilómetros nos separem da nossa estrela, esta ao menos apresenta-se como um disco luminoso. Portanto, o Sol é a única estrela em todo o Universo, na qual podemos observar a superfície, as camadas em torno da superfície e mesmo até estudar um pouco do interior. Com este conhecimento adquirido da nossa estrela, torna-se mais fácil deduzir o que se possa passar noutras estrelas, sejam elas semelhantes a nossa ou totalmente diferente.

A superfície do Sol

Dezembro 1610
"Apontei o telescópio para o Sol; este parece ter muitas irregularidades e rugosidades, mesmo em torno do limbo. Enquanto olhei atentamente apareceu-me inesperadamente uma mancha relativamente grande em relação ao tamanho do corpo do Sol. (...) chamei o meu pai (..) Ambos começamos captar a luz do Sol com o telescópio, partindo do limbo, avançamos cada vez mais para o centro, até os nossos olhos se terem habituados ao brilho e nos permitiram ver todo o disco solar. E ali observamos o objecto com mais nitidez (...)"
ATENÇÃO
SEM A DEVIDA PROTECÇÃO NA ENTRADA DO INSTRUMENTO, NUNCA DEVE APONTAR QUALQUER SISTEMA ÓPTICO PARA O SOL. PERIGO CERTO DE DANOS IRREPARÁVEIS NA VISTA E ATÉ CEGUEIRA PERMANENTE.


Este é um extracto do relato de Johannes Fabrizius sobre a sua descoberta das manchas solares como um fenómeno real do Sol, cujo manuscrito "Narratio de maculis in sole observatis et apparente earum cum sole conversione" data de 13 de Junho de 1611.

O seu contemporâneo Galileu Galilei afirmou mais tarde, que já tinha avistado as manchas em Agosto de 1610, sendo portanto o descobridor. Galileu costumava publicar imediatamente qualquer coisa nova que via em forma de anagramas, mas nenhuma linha publicada se refere às manchas solares. Por isso, esta disputa de quem foi o descobridor das manchas solares nunca ficou mesmo bem resolvida.

Manchas solares


Mancha solar. Imagem do autor.
Durante os séculos seguintes, as manchas solares eram os únicos fenómenos facilmente estudáveis no Sol. O padre jesuíta Christoph Scheiner (1575-1650) determinou através das manchas solares o tempo de rotação e mesmo a inclinação do eixo de rotação do Sol. Heinrich Schwabe (1789-1875) consegui determinar que a actividade do Sol, isto é a quantidade de manchas visíveis, oscila num ciclo com cerca de 11 anos. Em 1908, George Ellery Hale (1868-1938) descobre através do espectro das manchas solares o campo magnético solar e sua actividade.

Hoje em dia conhecemos uma boa parte do mecanismo por detrás das manchas solares e que estas nem sequer são a parte predominante da actividade solar. Porém, para quem não segue uma carreira de cientista, as manchas solares são o objecto mais fascinante e facilmente observável para qualquer pessoa com um telescópio devidamente equipado com um filtro adequado.

Olhar para a superfície do Sol e lembrar-se que este é uma verdadeira estrela, a nossa estrela, pode ser uma sensação peculiar.

Um poeta à beira-mar pode olhar para um pôr do Sol e encher o coração e a alma com palavreados rosados que até faria pedras sonhar.

Seguir a actividade do nosso Sol, observar manchas solares e sua evolução diária em pormenor, consegue-nos levar bem além. É um contacto visual e espiritual único com o interior do Universo. Basta olhar e manter uma mente aberta.

Afinal, não só vivemos numa casa, numa cidade, nem apenas num planeta. Vivemos ao lado de uma estrela verdadeira.