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Objecto de Hoag

Ditos

"Só porque algo não faz o que você planeou não significa que seja inútil."
- Thomas A. Edison


Onze temas para embarcar numa viagem no tempo e no espaço. Onze convites para olhar para as estrelas.

2008-02-16
Até há meia dúzia de décadas a Astronomia, apesar de todo o seu progresso, pouco de novo tinha encontrado, que não possa ser observado também a olho nu ou com um binóculo simples.

Inata na humanidade é o fascínio pelas estrelas. Mas a sua abundância pode ser assustadora... como orientar-se entre esta amálgama de pontos luminosos, e o que é que?...

Seguir os passos das gerações que nos antecederam para desvendar os mistérios da abóbada celeste permite-nos, hoje em dia, com a sabedoria adquirida, levantar o véu de eventuais incógnitas e saborear, mesmo com meios rudimentares, tudo o que o Universo apresenta todas as noites para o olho e a mente se banquetear.

Desde a “esquina” do espaço até aos limites do Universo observável, tudo está ao alcance da nossa percepção, e principalmente do olhar. Mas também alimenta a nossa imaginação e o raciocínio, que, em conjunto, nos permitem formar uma ideia muita clara da nossa existência cósmica e o que nos envolve.

Luar perigoso


Crédito: CdA/UAA/L.Evangelista.
Ao longo dos últimos 40 mil anos o homem quase nada mudou no seu aspecto. Ou seja, um homem da Idade da Pedra podia entrar num autocarro, desde que vestido ao estilo actual, unhas cortadas, cabelo penteado e todo lavadinho, e ninguém ia suspeitar dele. Quase nada sabemos dos pensamentos dos nossos predecessores de há 40 mil anos, mas podemos presumir, que tinham uma dose semelhante de preocupações quotidianas, tal como nós hoje em dia; se bemque o teor era, certamente, diferente, mais virado para a sobrevivência imediata e constante.

O céu nocturno da Idade da Pedra deve ter sido uma autêntica maravilha. A Via Láctea em todo o seu esplendor e milhares de estrelas individuais pintaram, sem dúvida, todas as noites de céu limpo. A única luz artificial vinha da pequena fogueira para afastar os predadores e animais selvagens.

Todo este céu fantástico, não perturbado, filtrado ou abafado e ...bem, nenhum astrónomo por perto para o apreciar.

Mesmo que não tenha sido frequente, certamente havia entre estes humanos quem apreciava olhar para as estrelas. E, por falta de telenovelas, telemóveis, internet e afins, repetiam frequentemente o olhar para cima.

Aos homens encarregados da vigia nocturna do clã não deve ter escapado o trajecto nocturno das estrelas na abóbada celeste, nem a mudança gradual das estrelas principais ao longo do ano. Mas isso pouco os afectava ao nível diário.

Bem diferente deve ter sido a luz da Lua.

As fases da Lua e o seu nascer diariamente retardado é tão obvio, que até os da outra espécie, dos Neandertal, podiam tirar conclusões e fazer previsões quanto ao estado da Lua de um dia para outro.

Encontros directos sob luar


Conjunção da Lua e Júpiter. Crédito: CdA/UAA/C. Reis.
Particularmente complicados devem ter sido os dias após o quarto crescente e antes do quarto minguante, com a Lua cheia a meio. A luz solar reflectida do nosso astro vizinho iluminava a paisagem de forma preocupante, tornando qualquer acampamento humano facilmente detectável aos inimigos e predadores nocturnos, mesmo que fossem míopes. Em torno da Lua cheia a paisagem fica tão iluminada, que até as plantas projectam sombra. Deve-se ter em consideração que naqueles tempos ainda não ocupávamos o topo da cadeia alimentar, mas sim a lista de ementas ambulantes da fauna de então.

Nestas alturas de luar intenso, a vigilância deve ter sido a dobrar. Apesar de tudo, os guardas da noite tinham de descansar o olhar atento e, de vez em quando, acabaram de presenciar fenómenos peculiares envolvendo a Lua.

Todos os dias, a Lua passa, no seu caminho, em frente de estrelas, ocultando-as durante algum tempo. Esporadicamente estas ocultações envolvem estrelas brilhantes, facilmente visíveis ao olho nu. Tais ocultações de estrelas de destaque devem ter sido fáceis de acompanhar pelos humanos de então, tal como o é para os de hoje. Mais que provavelmente o fenómeno em si passou incompreendido. Ainda mais provável, qualquer fenómeno invulgar e incompreensível era temido, desde uma mudança do tempo ou o aparecimento de algum efeito iminente, até a irá dos deuses.

Ainda hoje em dia, a Lua oculta inúmeras estrelas todos os dias, e muito frequente estrelas observáveis com extrema facilidade. Porém, podemos apreciar estes fenómenos de espírito descansado, pois nada nos acontecerá enquanto estamos confortavelmente sentados (com ou sem binóculo ou telescópio) a acompanhar o desaparecimento e reaparecimento das estrelas por detrás do disco lunar. Um toque peculiar é acompanhar o re-/desaparecimento repentino de uma estrela no lado não iluminado da face lunar.

O quadro das efemérides do mês lista todos os eventos envolvendo estrelas facilmente observáveis a olho nu (até mag. 6) e com qualquer binóculo (até mag. 7,5). Observe a Lua pelo menos 15 minutos antes do momento indicado no quadro, pois a hora exacta depende do local onde o observador se encontra no país.

Nalguns casos raros uma estrela parece apenas roçar ao longo da orla lunar. Visto num telescópio ela desaparece e reaparece constantemente, conforme a paisagem lunar tem altura suficiente para tapar ou não a luz da estrela. Com estas ocultações, chamadas de rasantes, os astrónomos podem, e ainda hoje o fazem, determinar o perfil e a altura exacta das cadeias montanhosas e outras elevações perto do limbo lunar.

Passagens próximas

Igualmente frequente são, na esfera celeste, os encontros próximos sem ocultação entre a Lua e estrelas ou planetas. Do ponto de vista científico estas, assim chamadas, conjunções não fornecem nenhum dado útil. Por outro lado, tais proximidades são uma valiosa ajuda ao principiante para identificar os planetas por entre os outros pontinhos luminosos.

As conjunções entre a Lua e um ou vários planetas costumam proporcionar excelentes enquadramentos fotográficos, especialmente se a imagem capta também uma parte da paisagem ou do horizonte. As melhores alturas e imagens mais gratificantes são obtidas pouco antes ou depois do pôr do Sol.

Conjunções entre a Lua e os planetas são identificadas no quadro das efemérides. Tipicamente o planeta é o objecto mais luminoso perto da Lua. A hora indicada no quadro indica o momento da maior aproximação, a qual, por vezes, incide sobre horas diurnas ou com a Lua por baixo do horizonte. Todavia, uma conjunção estende-se tipicamente ao longo de 20 horas, sendo portanto em parte observável na noite anterior ou posterior a data indicada.

Sombras assombrantes

Enraizada nas nossas mentes desde dos tempos pré-históricos, a paisagem nocturna, mesmo que ligeiramente iluminada, deixa a maioria das pessoas com uma sensação algo constrangida. Do ponto de vista da natureza, não somos feitos para nos aventurar pela noite fora. Os perigos podem espreitar em qualquer esquina. E qual não será o susto, se a escuridão é cortada por uma sombra em movimento. Seja bicho ou homem, todos os nossos sentidos ficarão em estado de alerta total.


Eclipse da Lua. Crédito: CdA/UAA/L. Carreira.
Susto, medo ou coragem, sombras envolvem a superlativa dos encontros celestes. A Terra é uma bola gigantesca iluminada, num lado, pela intensa luz solar. E onde há luz, também há sombra. A sombra que a Terra projecta no espaço não é normalmente visível. Porém, pelo menos uma vez por ano a Lua cruza-se com esta nossa sombra... e o resultado é um eclipse da Lua.

Se as noites de luar intenso exigiam dos humanos pré-históricos uma vigilância reforçada, o que terão estes pensado quando a Lua cheia começou perder o seu brilho, tingindo-se depois de cor castanho avermelhado, parecendo-se com uma lua ensanguentada? Provavelmente foi o sentido até aos tempos medievais: puro terror ou mesmo pânico.

Bruxas, dragões, lobisomens, monstros, magia e Lua cheia são invariavelmente associações mentais que persistiram ao longo de milénios. Aparentemente e compreensívelmente, a Lua cheia antigamente não era particularmente bem vista. E enquanto a civilização moderna pouco liga às fases da Lua, os observadores dos astros são dos poucos que mantém viva esta aversão do luar intenso. Evidentemente não por motivos fantasmagóricos mas simplesmente pelo facto de a luz lunar “abafar” a luz das estrelas, tornando mais difícil encontrar e observar os objectos de brilho fraco.

De volta às sombras, também a Lua projecta evidentemente uma sombra, normalmente invisível como a da Terra. Mas tal como a Lua encontra as vezes a nossa sombra, também a Terra leva esporadicamente com a sombra da Lua. Quando estamos por baixo da sombra de um guarda-sol, este guarda-sol tapa a vista do Sol, enfim é essa a ideia. Quando estamos por baixo da sombra da Lua, esta também tapa uma parte ou por inteiro o disco solar. O resultado é um eclipse solar.

O quadro das efemérides informa, desde que exista um eclipse, sobre a hora central dos eclipses lunares e solares. Um quadro à parte pormenoriza as horas do progresso daqueles eclipses observáveis em Portugal

Os eclipses lunares são normalmente pouco investigados pela comunidade científica, mas os eclipses do Sol, especialmente os eclipses totais que ocultam todo o disco solar, ainda são aproveitados para, por exemplo, confirmar parâmetros e elementos cruciais usados na frente de combate da pesquisa moderna. Ao mortal comum, desde os tempos pré-históricos aos tempos modernos, os eclipses são simplesmente fenómenos celestes absolutamente espantosas que não se devem perder.

De perto

Aos olhos dos homens da antiguidade a Lua apresentou sempre a mesma face manchada, aliás tal como hoje, sem qualquer pormenor aparente. As observações tinham de se limitar aos aspectos acima expostos, isto é conjunções, ocultações e eclipses. Desde da invenção do telescópio a Lua ganhou um novo conceito, de facto, uma cara nova. Mesmo telescópios pequenos mostram uma superfície lunar rica em elevações e depressões, crateras e cadeias montanhosas, convidando a um passeio visual único, que jamais podemos repetir com qualquer outro objecto do Sistema Solar.


Mare Humorum. Crédito: CdA/UAA/M. Santiago.
E mais uma vez é a Lua cheia e os dias em torno dela, que são os menos apreciáveis. Durante a Lua cheia, o Sol ilumina a paisagem lunar directamente de frente e, tal como o Sol do meio-dia na Terra, não há sombras. Ao contrário das sombras que nos podem assustar à noite, as sombras na paisagem lunar transformam a superfície lunar num relevo tridimensional, as crateras ganham profundidade, as montanhas elevam-se sobre as planícies e o tamanho da sombra permite obter uma ideia, ou calcular com espantosa precisão, a altura ou profundidade dos objectos. A grande maioria dos astrónomos já pouco liga a Lua, pois esta não está a sofrer transformações observáveis. Porém, não há amante das estrelas que recuse um passeio lunar através da ocular de um telescópio.

Perante as distâncias envolvidas no Sistema Solar, da Terra até a Lua é apenas um salto de pulga. O nosso singular astro vizinho é, junto com o Sol, o maior objecto aparente no céu e apresenta imensa dinâmica em relação ao fundo do céu, as estrelas e planetas, e um perfil riquíssimo em pormenores observáveis.

O sossego ao luar

Não é de estranhar que, de todos os objectos celestes, a Lua, sendo tão próxima e grande, chamou a atenção de todos, desde o homem pré-histórico até ao homem moderno.

Observar os fenómenos envolvendo a Lua praticamente não requer quaisquer meios auxiliares, podemos deixar-nos fascinar com a mesma simplicidade como os vigias em torno das fogueiras pré-históricas, mas libertos das incógnitas e medos que estes tiveram de suportar.

Numa noite de luar numa praia escura, ou num campo longe das casas ou mesmo na varanda, desde que numa localidade sem luzes a incomodar, basta o conforto de uma cadeira reclinável e o espectáculo celeste, mesmo que um pouco mais lento que um filme de acção, desenrola-se e a nossa fantasia ganha asas. Poetas de todas as culturas gastaram rios de tinta e palavras, em versos envolvendo a nossa Lua. Se deixarmos para trás o que tanta preocupação causou aos nossos antepassados, afinal a noite e o luar, talvez não sejam assim tão perigosos como parecem.

A Lua é o primeiro objecto com que o olhar se cruza ao sair da Terra, ou cientificamente mais correcto, a luz da Lua, o luar, é o que vem de mais perto. Toda a luz do restante Universo vem de substancialmente mais longe. Depois da Lua, numa viagem mental, vêem os planetas. Planetas são, sem dúvida alguma, objectos extremamente interessantes. Enfim, vivemos num.

Na próxima crónica, progredimos na história, deixamos a Idade da Pedra para trás. Mas também deixamos a Terra ao encontro dos seus colegas celestes. Sem os restantes planetas o Sistema Solar não seria o que é, nem nós estaríamos por cá, para o apreciar. O fascínio pelos planetas é em grande parte partilhado tanto pelos astrónomos como pelos amantes das estrelas. Olhar para um planeta é o primeiro passo ao subir a escada cósmica. Até trepar este primeiro degrau, aproveite o que a Lua tem para mostrar.