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Remanescente de supernova SNR0103-72.6

Ditos

"Se não falhar de vez em quando, isso é um sinal de que não está a fazer nada de muito inovador. "
- Woody Allen


O Triângulo de Verão

2006-06-22
Durante a época estival do hemisfério norte, o céu das primeiras horas da noite é marcado por três estrelas muito brilhantes: Vega (Alfa da Lira), Altair (Alfa da Águia) e Deneb (Alfa do Cisne). Unindo-as com traços imaginários, vemos surgir um enorme triângulo, conhecido como «Triângulo de Verão». A partir de cada um dos seus vértices é fácil encontrar três constelações muito fáceis de observar mesmo em locais com alguma iluminação artificial.





Neste trabalho vamos dedicar alguma atenção aos mitos que estão associados a essas constelações. É certo que os principais mitos que conhecemos têm origem na cultura da antiga Grécia, mas na verdade há não só indícios de que tais mitos possam ser bem mais antigos, como também se encontram alguns de origem muito diferente.

Ao falarem do Triângulo de Verão, muitos autores têm a preocupação de dizer que não se trata de uma constelação, mas apenas de uma figura arbitrária. Isso é verdade, mas se pensarmos um pouco, verificamos que também as constelações não são mais do que figuras arbitrárias legitimadas pelo uso e por um acordo com cerca de um século entre os astrónomos.

Independentemente da legitimidade da sua existência, a verdade é que o Triângulo de Verão é um dos espectáculos mais interessantes do céu estival. Quando o vemos na direcção do nascente, a estrela mais alta é Vega, a mais brilhante das três. O vértice mais setentrional é formado por Deneb. Por seu lado Altair forma o vértice mais meridional e também o mais próximo do horizonte. Numa apreciação atenta, verificamos que todas têm coloração branca. Por esse motivo fazem parte da classe A, uma das mais quentes, apenas superada pelas classes O e B. Mesmo a olho nu nota-se que há diferenças nos seus brilhos aparentes, mas que estão longe de ser exageradas. Comparando esses brilhos, verificamos que a menos brilhante do Triângulo de Verão é Deneb (magnitude aparente 1,33), seguida de Altair (mag. ap. 0,93) e a que exibe maior brilho é Vega (0,03).

No entanto, se pensarmos nas distâncias a que estão, temos uma surpresa: enquanto Altair e Vega são «vizinhas» (a respectivamente 16,8 e 25,3 anos-luz), Deneb está muitíssimo longe. De facto, apesar de os dados referentes a Deneb comportarem uma considerável margem de insegurança, é evidente que estamos perante uma estrela notável: mesmo a mais de 3000 anos-luz, é uma das estrelas mais brilhantes dos nossos céus, pois brilha cerca de 260 000 vezes mais do que o nosso astro-rei. Ou seja, vemo-la com um brilho pouco menor que Altair apesar de estar quase 200 vezes mais longe.

 
Estrela Magnitude
aparente
Classe
espectral
Distância
(anos-luz)
Luminosidade
(Sol = 1)
 
Altair 0,93 A5 16,8 10,9
Vega 0,03 A0 25,3 48,7
Deneb 1,33 A2 3 200* 260 000*
 
* Com considerável margem de insegurança

Os vértices do Triângulo de Verão

Vega

A alfa da Lira é uma das cinco estrelas de maior brilho aparente de todo o céu nocturno, apenas sendo ultrapassada por Sírio, Canopo, Alfa do Centauro e Arcturo. A sua temperatura superficial é de cerca de 9000 ºC e o seu diâmetro (4 500 000 km) é o triplo do solar. Vai ser a «polar» dentro de 11 500 anos, devido ao movimento de precessão. Para as latitudes portuguesas, Vega pode ser vista próxima do zénite cerca das 23 horas no princípio do Verão.

Altair

O nome «Altair», a alfa da Águia, provém do nome dado pelos Árabes ao conjunto formado por Alfa, Beta e Gama: «Al Nasr al Tair», a Águia Voadora. Altair é a 12ª estrela em brilho aparente de todo o céu. Esse lugar destacado deve-se em grande parte ao facto de estar apenas a 16 anos-luz. Um ponto no equador do Sol completa uma rotação em cerca de 26 dias. Em Altair leva apenas 6,5 horas. Tendo a estrela um diâmetro médio de 1,5 vezes o do Sol, uma rotação tão rápida causa um achatamento polar considerável.

Deneb

Deneb, a 19ª estrela em brilho aparente de todo o céu, é uma das maiores supergigantes conhecidas. Com uma massa de 12 a 25 vezes a do Sol, brilha tanto como 260 000 sóis e está a uma distância de 3200 anos-luz (estes últimos números com uma acentuada margem de incerteza). Tem cor branca-azulada e um diâmetro que ultrapassa o da órbita de Mercúrio. A vida de uma estrela nestas condições é muito curta sendo provável que venha a terminar os seus dias numa violentíssima explosão a que se dá o nome de supernova. Quando tal acontecer, vai tornar-se mais brilhante que uma lua cheia, impossibilitando durante semanas a observação das outras estrelas e sendo perfeitamente visível durante o dia. O seu núcleo dará provavelmente origem a uma estrela de neutrões.

Mais curioso ainda é que, atendendo à distância a que se encontra, até já poderá ter ocorrido essa violentíssima explosão há séculos, mas só poderemos saber a notícia quando o clarão percorrer o trajecto que nos separa. Nos céus as notícias demoram muito a chegar, pois apesar de viajarem à velocidade da luz, isso é muito lento dadas as enormes distâncias a percorrer.

Quando Deneb explodir, não só deixaremos de ter o actual Triângulo de Verão, como o nome alternativo do Cisne, Cruzeiro do Norte, deixará de fazer sentido. Em compensação, teremos um objecto de grande interesse para observar, como acontece actualmente com M1, a Nebulosa do Caranguejo na constelação do Touro.

O nome da estrela mais brilhante do Cisne, Deneb, provém de Al Dhanab al Dajajah, a Cauda da Galinha, pois para os árabes era esse o animal representado pela constelação. Há várias estrelas com o nome «Deneb», pois a palavra significa «cauda» em árabe. No entanto, quando usado isoladamente refere-se à Alfa do Cisne enquanto que no caso de outras estrelas lhe é acrescentado o nome da respectiva constelação, como é o caso de Deneb Kaitos (Beta da Baleia), de Deneb Delfim (Épsilon do Delfim) ou Deneb Okab (Delta da Águia). Há também estrelas cujo nome deriva de Deneb, como é o caso de Denebola, a Beta do Leão.

Mitologia das constelações do Triângulo de Verão

A Lira


De acordo com a mitologia grega a primeira lira terá sido fabricada pelo deus Hermes, filho de Zeus e de Maia, uma das Plêiades, com uma concha de tartaruga que encontrou nas proximidades da sua caverna no Monte Cilene, na Arcádia. Hermes limpou cuidadosamente a concha e fez-lhe entalhes nos bordos onde prendeu sete cordas feitas com tripas de vaca. Terá também sido ele a inventar o plectro, a pequena vara com que se pode tocar a lira e que era tradicionalmente em marfim, ouro ou madeira.

O novo instrumento musical terá permitido a Hermes livrar-se de problemas quando, num acto de leviandade juvenil, se aventurou a roubar gado a Apolo. Este, furioso, veio exigir a devolução, mas ao ouvir a música da lira aceitou o instrumento como pagamento dos animais roubados. Eratóstenes dizia que, mais tarde, Apolo terá oferecido a lira a Orfeu para acompanhar as suas canções.

Orfeu era o maior músico da sua época, e provavelmente de todos os tempos, pois era capaz de encantar pessoas e animais, pedras e correntes de água, apenas com a magia das suas canções. Conta-se mesmo que teria atraído uma floresta de carvalhos que o seguiu até à costa da Trácia!

O músico juntou-se à expedição de Jasão na busca do velo de ouro. Quando os Argonautas começaram a ouvir as tentadoras canções das sereias, Orfeu cantou uma melodia que abafou o som das perigosas sedutoras.

O grande cantor viria a casar com uma ninfa, Eurídice. Um dia, a jovem foi atacada por Aristeu, filho de Apolo e da nereide Cirene. Ao fugir do atacante, pisou uma cobra venenosa que lhe mordeu, causando-lhe a morte. Orfeu ficou de coração despedaçado. Sentindo-se incapaz de viver sem Eurídice, resolveu descer até ao Mundo Inferior (o mundo dos mortos) para pedir que ela fosse libertada. Tratava-se dum pedido sem precedentes para um mortal, mas o som da sua música conseguiu amansar o perigoso cão de três cabeças Cérbero que guardava a entrada, e encantar o coração de Hades, o deus desse mundo. O poderoso Hades apenas pôs uma condição: no seu caminho de regresso com a esposa, Orfeu não poderia voltar-se para trás até estarem no exterior.


Orfeu não tinha alternativa e caminhou pela escuridão tentando guiar Eurídice com a sua música. No entanto, começou a recear estar a ser perseguido por um fantasma e não por ela. Já quase na saída voltou-se para a ver, o que fez com que a infeliz lhe fosse de novo arrebatada, desta vez para sempre. Orfeu ficou arrasado. A partir de então foi caminhando pelo mundo tocando a sua música. Muitas mulheres se ofereceram para casar com ele, mas o cantor preferiu a companhia de jovens rapazes.

Há duas versões relativas à morte de Orfeu. Ovídio, nas Metamorfoses, dizia que as mulheres ofendidas lhe começaram a atirar pedras e lanças. No entanto, a sua música impedia que fosse atingido, pois encantava as próprias armas. Mas isso ainda as encarniçou mais e acabaram por conseguir atingi-lo.

Por seu lado Eratóstenes afirmava que Orfeu incorreu na fúria do deus Dioniso por não lhe fazer oferendas. Orfeu admirava Apolo, o deus símbolo do Sol e das artes, a quem considerava a divindade suprema, e por vezes sentava-se no cume do monte Pangeu, na Macedónia, ao amanhecer, para ser o primeiro a receber o Sol e lhe dedicar as suas músicas. Dioniso vingou-se mandando os seus seguidores desmembrar o músico. Fosse como fosse, Orfeu acabou por ir para junto da sua amada Eurídice. As Musas, com o acordo de seu pai, Zeus, colocaram a Lira no céu.

Numa outra lenda, a Lira representa o instrumento musical que o poeta e cantor Aríon usava para acompanhar os seus concertos.

Ao longo dos tempos a constelação foi conhecida por muitos nomes, quase sempre relacionados com os mitos antes referidos, tanto com o instrumento (Lira, Cítara, etc.), como com o proprietário (Orfeu, Apolo e Hermes) ou mesmo com a tartaruga e a sua concha.

No entanto, outros povos viam na constelação coisas diferentes. Assim, para os Babilónios, era Dilgan o Mensageiro da Luz.

Os Árabes viam aí uma Águia de Asas Fechadas, «Al Nasr al Waki», de onde provirá o nome «Vega». Curiosamente, os nomes das estrelas Beta e Gama, apesar de terem origem árabe, parecem ter relação com o instrumento musical. De facto, Beta chama-se «Sheliak», Harpa, e Gama é «Sulafat», a Tartaruga, o que será uma referência ao animal de cuja casca foi feito o instrumento.

Mas uma eventual relação entre a Lira e uma águia também se pode detectar em gravuras antigas que mostram uma lira sustentada por uma águia, mas, ao contrário da ave que é representada pela constelação da Águia, esta tem as asas quase fechadas.

A Águia


O principal dos deuses Gregos, Zeus, tinha escolhido uma águia para transportar os raios com que fulminava os seus inimigos. No entanto, de acordo com uma das versões da mitologia grega, a águia terá também servido para uma das suas conquistas amorosas quando capturou Ganimedes, filho de Calírroe e de Trós, o rei que deu o nome a Tróia, até então chamada Ílion. O jovem seria muito belo e o deus queria-o no Olimpo para servir ambrósia aos seres supremos. Ovídio afirmava que fora o próprio Zeus a transformar-se em águia, mas outros garantiam que a ave apenas cumprira as ordens do deus.

Germânico César dizia que a Águia está a guardar a flecha com que Eros fez Zeus ficar apaixonado por Ganimedes, correspondendo a flecha à constelação da Seta, enquanto o jovem está representado no céu pelo Aquário. Nas gravuras antigas pode ver-se a Águia a fazer voo picado na sua direcção.

Uma versão diferente é apresentada por Higino. Segundo esse mitógrafo, Zeus apaixonou-se pela deusa Némesis, que no entanto resistia aos seus avanços. Zeus urdiu um plano: transformou-se num cisne, ao mesmo tempo que Afrodite fingia persegui-lo sob a forma de águia. Ao conceder refúgio ao falso cisne, Némesis acabou por ser ludibriada pelo artifício de Zeus. Teria sido para comemorar o seu sucesso que o deus colocou no céu o Cisne e a Águia.


Um mito oriental (China e Coreia) considerava que a Águia e a Lira representavam dois amantes separados por um rio (a Via Láctea) e que apenas uma vez no ano se conseguem encontrar, pois nessa altura as pegas se juntam para formar uma ponte através do rio celeste.

Para os indígenas australianos, a constelação representava Totyarguil, uma personagem da sua mitologia morta por uma criatura marinha durante um banho na praia; em compensação, consideravam a estrela Sírio uma águia.

Tanto Sumérios como Babilónios se referiam à constelação como sendo «Idxu Zamana», a Águia. Esta designação foi depois seguida por Gregos e Romanos. Ptolomeu dava o mesmo nome à estrela e à própria constelação, Aetus, que significa «a Águia». No entanto este astrónomo considerava as estrelas situadas mais a sul como formando Antínoo, uma constelação agora obsoleta.

As designações das estrelas Beta e Gama (Alshain e Tarazed respectivamente) provêm do nome que os Persas davam à constelação: «Shahin Tarazed», o Falcão.

O Cisne


Zeus, o insaciável conquistador, apaixonou-se pela ninfa Némesis, que vivia num local a nordeste de Atenas. Para escapar aos avanços indesejados do deus, Némesis assumia a forma de vários animais, umas vezes saltando para um rio, outras fugindo por terra. De todas as vezes o deus a perseguiu assumindo a forma dum animal do mesmo género, mas maior e mais rápido, sem no entanto conseguir alcançar os seus intentos. Quando em mais uma das suas tentativas ela se transformou em ganso, Zeus assumiu a forma de cisne e depois de a alcançar, violou-a.

Esta versão é a referida por Eratóstenes. Na que nos chegou através de Higino não haveria quaisquer metamorfoses por parte de Némesis e Zeus, em vez de perseguir a ninfa, fingiu ser um cisne que procurava protecção para escapar a uma águia que o perseguia (ver Águia). Némesis deu-lhe guarida e só quando foi dormir, levando consigo o cisne, é que percebeu ter sido ludibriada. Em ambas as versões se afirma que esta ligação levou Némesis a pôr um ovo que viria a ser entregue (por Hermes ou por um pastor) a Leda, a rainha de Esparta. Desse ovo viria a sair a linda Helena, que seria mais tarde uma das personagens mais famosas da mitologia: Helena de Tróia.

Outra versão segue directamente para Leda. Zeus, assumindo a forma de cisne, seduziu a rainha nas margens do rio Eurotas que banhava Esparta. O que viria a complicar a história, é que na mesma noite a rainha teve relações com o marido, o rei Tíndaro. Da complexa gravidez teriam resultado quatro gémeos: dois rapazes, Castor e Polideuces (Pólux para os Romanos) representados pela constelação dos Gémeos, e duas raparigas, Helena e Clitemnestra. Polideuces e Helena eram imortais por serem filhos de Zeus, enquanto Castor e Clitemnestra eram seres mortais. Mesmo desta última versão, já de si complicada, há múltiplas variantes.

Quando os Romanos adoptaram a designação que ainda hoje lhe damos, o Cisne começou também a ser identificado com vários personagens mitológicos a quem foi dado o nome de Cicno.

O primeiro Cicno surge durante a Guerra de Tróia. Considerado invulnerável por ter sido gerado por Posídon, foi no entanto morto por Aquiles. O pai transformou-o então no Cisne e colocou-o no céu. Outro Cicno era rei da Ligúria. Chorou tanto a morte do amigo (ou irmão) Faetonte, que fora fulminado por Zeus, que Apolo, comovido, o transformou em cisne. O grito plangente desta ave lembra os gemidos da inconsolável personagem.


Um terceiro Cicno, o mais conhecido, é o filho de Apolo. Tinha o costume de submeter os amigos a difíceis provas em que tinham de provar a sua fidelidade. Foram muitos os que se recusaram a ser amigos de alguém tão exigente. Só Fílio se prestou a tais provas. Com a ajuda de Héracles, matou muitos monstros e domou um touro furioso. Mas também ele se cansou de tantas provas e se afastou. Cicno sentiu-se desprezado e, em desespero, atirou-se juntamente com sua mãe a um lago. Apolo transformou-os a ambos em cisnes.

Um quarto Cicno tinha como pais Ares, deus da guerra, e Pelopeia, uma das filhas de Pélias. Atacava os viajantes que se deslocavam a Delfos e roubava-lhes as oferendas destinadas a Apolo. Foi morto por Héracles num combate.

O Cisne deverá ter a sua origem na Mesopotâmia, pois os povos dessa região tinham uma constelação representando uma ave provavelmente chamada «Urakhga», donde veio o nome árabe «Rukh», que ficou conhecido como «Roc» nos contos de Simbad, o Marinheiro.

Para Eratóstenes a constelação tinha o nome de «Kiknos», mas para os Gregos em geral era apenas Ornis, Ave. Embora pudesse ser qualquer ave, era em geral aceite como representando uma galinha, tradição que perdurou entre os Árabes, que para além doutras designações lhe chamavam «Al Dajajah», a Galinha.