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Ditos

"A coisa mais incompreensível do Universo é o facto de este ser compreensível."
- Albert Einstein


Janela para fora com vista do jardim de pedras

2016-05-26
27.Mai.- 2.Jun.2016 (Portugal)

As noites curtas usurpam a agenda dos observadores dos astros, deixando poucas horas de escuridão para ver longe, mesmo bem longe, e explorar assim o chamado céu profundo. Quando a noite se instala, a Virgem ocupa a zona sul. Isto quer dizer que, no início da noite, estamos a olhar para cima do plano galáctico e do braço da galáxia em que o Sol se encontra. Por isso temos na primavera menos estrelas no sul que no verão ou no inverno. Veem-se menos porque há menos estrelas no caminho do nosso olhar. Durante a primavera temos uma espécie de janela para ver para fora da galáxia.

E o que se vê lá fora? Outras galáxias!
Muitas, imensas galáxias. Particularmente, a zona entre a traseira do Leão e a cabeça da Virgem está cheia delas. A maioria das mais de 2000 galáxias contidas nesta área celeste faz parte de um grupo e está gravitacionalmente interligada, formando o assim chamado enxame ou aglomerado de Virgem. Este enxame é o mais próximo da nossa galáxia, a qual também pertence a um enxame de galáxias, o Grupo Local, com relações gravíticas amigáveis estabelecidas há muito e bem menos numeroso.



As galáxias do enxame de Virgem (círculos vermelhos) situam-se entre Leão e Virgem com Coma Berenice por cima. Embora algumas galáxias possam ser avistadas num telescópio de tamanho pequeno (>80 mm abertura), para gozar em pleno a riqueza desta paisagem celeste é necessário recorrer a fotografia de longa exposição.
Crédito: GRM/NUCLIO


A luz das galáxias do enxame de Virgem que morre estas noites nos nossos olhos iniciou o seu longo caminho quando na Terra os primeiros primatas começaram a avaliar o seu potencial para dominar o mundo, durante a época do Eoceno, há cerca de 50 milhões de anos. Em comparação, a galáxia de Andrómeda, a mais próxima da nossa, dista 2,5 milhões de anos-luz. A luz que vemos chegar da galáxia vizinha saiu das suas estrelas quando os primeiros hominídeos já se haviam estabelecido em solo firme, ao invés de pulularem nas árvores, e deram continuidade aos projetos de conquista planetária dos tais primeiros primatas. Hoje, sabemos, no caminho perderam-se uns pelos no peito e no rabo, mas alcançamos a meta há tanto estabelecida.

Quem prefere luz mais fresquinha, respeitando a idade e desgaste na viagem, não fica limitado quanto ao número de objetos possíveis de observar. No entanto, a grande maioria é algo poupadinha no que respeita a intensidade da luz que reflete.



A luz que hoje vemos do enxame de Virgem (esq.cima) nasceu junto com a teilhardina (esq.), que fazia parte dos primeiros primatas há 50 milhões de anos. A luz da galáxia da Andrómeda (centro cima) tem 2,5 milhões de anos de idade tal como o homo habilis (centro bx.), o habilidoso, o engenheiro sem licenciatura. Apenas um segundo de luz nos separa da Lua, tempo insuficiente para o homo sapiens sapiens (dta.bx.) evoluir para algo mais sábio.
Crédito: L.Steinbusch/GRM


Primeiro há a Lua, cuja luz leva 1 segundo para se esborrachar na nossa retina. Em fase minguante nasce muito tarde (27.5. 0:35h) e diariamente uns 40 minutos mais tarde.

Há também os outros vizinhos diretos. A luz com ar de ferrugem vinda de Marte em apenas 4 minutos de viagem não chega cansar-se muito e está lá a noite toda. Vénus está do lado de lá do Sol e inobservável.

Resta o quintal encostado ao sistema solar interior.
Um candidato potencial de seguir é 7-Iris, o sétimo asteroide alguma vez descoberto e em oposição no dia 29. É o início da época de rastreio deste calhau, que, se fosse estacionado no centro da aldeia de Bicos/Alentejo, ainda lançava sombra sobre as cidades de Lisboa e Faro, para além de esmagar invariavelmente o posto de abastecimento que ocupa o centro da dita aldeia.



Esq.: O rasto do asteroide 7-Iris manifesta-se nesta exposição de 45 min obtida há uma dúzia de anos quando o calhau de 200 km de largura passou projetado perto da galáxia do Sombreiro (M104).
Dta cima: Modelo do contorno de 8-Flora obtido através da análise da variação da sua curva de luz.
Dta.bxo.: Imagem do asteroide 4-Vesta com quase o triplo do tamanho dos outros dois. A morfologia não deve divergir muito, apenas o contorno se desvia cada vez mais do redondo, quanto mais pequenos se tornam os asteroides.
Crédito: Evers, Nasa, GRM


Uns dias mais tarde (dia 11.6) a oposição do dia cabe a 8-Flora, asteroide encontrado 2 meses após 7-Iris. Flora é um pouco mais pequeno que Iris. Mesmo assim, se 8-Flora fosse atração de exposição em Viseu, este resolvia de vez os problemas de urbanização da cidade e cabia confortavelmente entre as praias de Aveiro, a oeste, e Vilar Formoso, na fronteira no leste.

Iris é a deusa do arco-íris na mitologia grega, Flora a divindade das flores e jardins e mãe da primavera. Estamos ainda na primavera e estas oposições enquadram-se poeticamente na época. A proximidade dos dias de oposição destes dois asteroides é uma certa homenagem celeste a John Russel Hind, pois ele descobriu ambos.

Mas há mais oposições marcadas na cintura de asteroides entre Marte e Júpiter. Os quase 75km de contorno amorfo e massa carbonácea pertencentes a 516-Amherstia também se tornam um bom alvo de rastreio fotográfico para os próximos 2 meses.

Fenómenos da semana
29.5. 13:12 Lua em quarto minguante
29.5. 19:02 7 Iris em oposição (mag. 9.2)
30.5. 22:35 Marte em perigeu
31.5. 01:17 546 Amherstia em oposição (mag. 10.6)
01.6. 16:37 Lua perto de Úrano (3° S)

Contacto para as crónicas sobre a atualidade celeste: ceu@astronomia.pt