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Nebulosa NGC 6559

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"Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia."
- Arthur C. Clarke


O portal dourado

2015-12-31
1.Jan.- 7.Jan.2016 (Portugal)

É difícil não sentir na pele que o mês de janeiro se destaca pelas suas noites longas e frias. O sol desaparece em plena tarde, pouco depois das 17 horas, e fica escondido durante 14 longas horas.

Hoje em dia, a televisão, a internet, os locais de socialização noturna permitem preencher o tempo, pois não convém dormir tantas horas seguidas. Antigamente tais entretenimentos não existiam. Ai somente restava, à maioria das famílias, aconchegar-se da melhor forma possível, beber algo quente e contar histórias. Foi assim que os contos populares e contos da carochinha se mantiveram e preservaram durante séculos. Alguns desses contos remontam a milénios, tais como o da concepção imaculada, da busca do tosão de ouro, de Hércules e das suas façanhas, do dilúvio e assim para trás no tempo.

Enquanto os contos e narrativas populares da antiguidade desaparecem gradualmente da consciência humana, há aqueles difíceis de extinguir. Entre estes estão os mitos dos antigos gregos, que em parte remontam a narrativas babilónicas ainda mais antigas. Não é provável haver quem se lembra contar a saga de Orionte, o caçador, à beira da cama do seu filhote. Porém, a esfera celeste com as suas constelações de estrelas é, na verdade, um autêntico livro desses contos e mitos. Para cada constelação existe uma história. Muitas das constelações até estão associadas pela mesma narrativa, o que ajuda a memorizar os nomes das constelações e ao mesmo tempo a sua posição no céu, o que facilita imensamente a orientação por entre todas as estrelas.

Esta semana, porém, apenas abrimos o portão sem história. Depois das 19 horas, olhando para leste podemos encontrar três estrelas distintas numa fila direita que se ergue quase na vertical sobre o horizonte. Estendendo esta linha para cima encontramos uma estrela bem brilhante de cor alaranjada, chamada Aldebaran. O nome provém do árabe e significa aquela que segue. A questão é: segue o quê?


Esquerda: A imagem mostra os enxames das Híades (um V deitado em baixo) e das Plêiades (estrelas azuladas em cima). As Híades são mais antigas e por isso espalharam-se mais que o enxame vizinho. Direita: A mesma área da fotografia em forma de mapa estelar. As linhas de constelação perfazem parte do Touro, cuja estrela principal é Aldebaran. As Híades em torno dela representam os cornos da figura do Touro. Crédito: Matthies, GRM/NUCLIO
Se o céu não for demasiado contaminado com luz parasita, seguindo a linha inicial de estrelas, passando por Aldebaran chega-se a uma zona quase desprovida de estrelas. No meio desse aparente vazio há, no entanto, uma luz difusa, como uma nuvenzinha. Olhando bem, nota-se, que se trata de muitas estrelas de luz fraca amontoadas num pequeno espaço. Estas são as Plêiades, um enxame de estrelas ainda muito jovem e um rebuçado para quem usar um binóculo.

Aldebaran segue portanto o enxame das Plêiades. Mas ela própria está inserida num enxame de estrelas chamado as Híades. Quase todas as estrelas em redor de Aldebaran pertencem às Híades. As estrelas mais notórias assumem a forma de um V deitado, portanto é um enxame fácil de ver apenas com o olho. Os seus membros nasceram há cerca de 600 milhões de anos, altura em que na Terra apareceu o ancestral comum de todos os vertebrados, a Pikaia. As estrelas das Plêiades nasceram há cerca de 150 milhões de anos, altura em que nas terras (mais tarde) portuguesas o torvossauro causava pânico entre a fauna local.

Já os antigos observaram, que todos os planetas, o Sol e mensalmente também a Lua passam no seu caminho na esfera celeste sempre pelo espaço entre estes dois enxames. Por isso foi-lhes dado o nome adicional de portão dourado (- da eclíptica).

Tente descobrir as Plêiades e reconhecer o V formado pelas Híades. Uma vez detetado não se vai esquecer deles e todos os Invernos futuros os irá reconhecer. Entre o dia 1 e 2 a Lua passa por este portal.

Os homens vivendo há mais de 15 mil anos pintaram não só cavalos e touros nas paredes das suas cavernas. As Plêiades também se encontram ai registadas. Alias, as Plêiades eram uma parte muito relevante para a humanidade em evolução, quando esta passou de caçadores-coletores para o sedentarismo (cultivo e pecuária) há cerca de 10 mil anos atrás. O seu nascimento matinal ou desaparecimento cedo à noite era o inconfundível indicador para tratar da terra antes que a chegada da estação seguinte arruinasse o futuro alimento.

Uma vez que o dom da escrita ainda não existia, a única forma os humanos preservarem um conhecimento tão vital como reconhecer antecipadamente a mudança das estações foi o conto de histórias a volta da fogueira. As Plêiades passaram ao longo das histórias na história de semideuses para raparigas e depois de raparigas para ninfas a serem caçadas.

Tais transformações dos contos deixam uma certa curiosidade. De todas as histórias da carochinha e associadas, quais provém de tempos realmente remotos e tinham de origem uma base bem real e importante para a humanidade?