Nasceu uma estrela...

2004-05-21

Em cima: Localização no céu da Nebulosa de McNeil, na constelação de Orion. Em baixo: (A) a estrela jovem rodeada por um disco circunstelar, quando ainda em fase quiescente; (B) início da erupção, quando gás das regiões mais internas do disco aquece, tornando-se brilhante, enquanto algum gás é agarrado pelo campo magnético e levantado do disco, caindo depois em pontos quentes na estrela; (C) erupção em fase mais adiantada, quando os pontos quentes e a parte interna do disco juntos brilham mais do que estrela; (D) o gás de alta velocidade é ejectado, acentuando e iluminando a cavidade da nebulosa em redor da estrela; (E) visão mais distante do sistema que é observado como sendo a nebulosa de McNeil; (F) imagem obtida pelo telescópio Gemini da estrela em erupção e da sua vizinhança imediata. Crédito: Gemini Observatory Image.
Observações conduzidas no Observatório Gemini
Observatório Gemini
O Observatório Gemini é constituído por dois telescópios idênticos de 8,1 metros, um no Observatório de Mauna Kea, no Havai (Gemini Norte) e outro no Cerro Pachón, no Chile (Gemini Sul). As localizações estratégicas dos telescópios providenciam uma cobertura total do céu do Norte e do Sul. O Gemini é um consórcio internacional entre os Estados Unidos da América, o Reino Unido, o Canadá, o Chile, a Austrália, a Argentina e o Brasil, e é operado pela AURA.
proporcionaram uma visão rara do processo lento, mas violento, do nascimento de uma estrela
estrela
Uma estrela é um objecto celeste gasoso que gera energia no seu núcleo através de reacções de fusão nuclear. Para que tal possa suceder, é necessário que o objecto possua uma massa superior a 8% da massa do Sol. Existem vários tipos de estrelas, de acordo com as suas temperaturas efectivas, cores, idades e composição química.
na Nebulosa de McNeil, a cerca de 1500 anos-luz
ano-luz (al)
O ano-luz (al) é uma unidade de distância igual a 9,467305 x 1012 km, que corresponde à distância percorrida pela luz, no vácuo, durante um ano.
de distância. Os dados obtidos revelam dos mais pujantes ventos estelares até hoje detectados em objectos estelares jovens
YSO (do inglês Young Stellar Object)
Designa-se por objecto estelar jovem qualquer estrela que tenha evoluído para além da fase de proto-estrela, mas que não seja ainda uma estrela da sequência principal. Ou seja, uma estrela que ainda não acumulou a totalidade da sua massa, mas cujo brilho já é produzido pelas reacções nucleares no interior do seu núcleo. As estrelas do tipo T Tauri e as estrelas do tipo Herbig Ae/Be são exemplos de objectos estelares jovens.
. Esta nebulosa
nebulosa
Uma nebulosa é uma nuvem de gás e poeira interestelares.
, descoberta recentemente pelo astrónomo amador norte-americano Jay McNeil, está localizada no céu muito perto da cintura de Orionte, o Caçador.

Ao analisar imagens digitais que tinha obtido com o seu telescópio de 8 cm de abertura, McNeil reparou que nas suas imagens de regiões em Orionte, que conhecia bem, apareceu uma nebulosidade que ele sabia não existir ali anteriormente. Os astrónomos foram avisados quase imediatamente pela Internet, e perceberam que algo muito difícil de observar acontecera. Trata-se de uma erupção de uma estrela em formação que ilumina a nebulosa que a alberga.

Os astrónomos Colin Aspin e Bo Reipurth (Instituto de Astronomia da Universidade do Havai, EUA) realizaram observações da nebulosa de McNeil com um dos telescópios Gemini, conscientes de que a última vez que tal fenómeno foi observado foi há mais de trinta anos e que, portanto, é a primeira vez que algo de semelhante pode ser observado com instrumentos modernos.

Imagens e espectros do objecto estelar jovem foram obtidos com o Near-Infrared Imager and Multi-Object Spectrograph, e mostraram que a estrela aumentou consideravelmente o seu brilho
brilho
O brilho de um astro refere-se à quantidade de luz que dele provém, ou seja, a quantidade de energia por ele emitida por unidade de área por unidade de tempo. Dado que o brilho observado, ou medido, depende da distância ao objecto, distingue-se o brilho aparente (quando medido a uma determinada distância), do brilho intrínseco (conceptualmente medido na supefície do próprio astro).
. A estrela ejecta gás a velocidades superiores a 600 km/s. As observações indicam que a erupção terá sido despoletada por interacções complexas no disco circunstelar de gás e poeira que orbita em torno da estrela. Por razões ainda não totalmente conhecidas. a parte interna do disco começa a aquecer, fazendo com que o gás comece a emitir radiação
radiação electromagnética
A radiação electromagnética, ou luz, pode ser considerada como composta por partículas (os fotões) ou ondas. As suas propriedades dependem do comprimento de onda: ondas ou fotões com comprimentos de onda mais longos traduzem radiação menos energética. A radiação electromagnética, ou luz, é usualmente descrita como um conjunto de bandas de radiação, como por exemplo o infravermelho, o rádio ou os raios-X.
. Simultaneamente, algum deste gás é afunilado ao longo das linhas de campo magnético
campo magnético
O campo magnético é a região em torno de um corpo na qual é detectada uma força magnética. Os campos magnéticos actuam apenas em partículas electricamente carregadas. Campos magnéticos fracos são por exemplo gerados por efeito de dínamo no interior dos planetas e luas, enquanto que campos magnéticos mil milhões de vezes mais fortes podem ser gerados em estrelas e galáxias. Os campos magnéticos são capazes de controlar o movimento de gás ionizado e até moldar a forma dos corpos por eles actuados.
para a estrela, provocando o aparecimento de pontos quentes na sua superfície, e fazendo assim com que a estrela veja a sua massa
massa
A massa é uma medida da quantidade de matéria de um dado corpo.
aumentar progressivamente. Neste processo, a erupção varre parte do gás e poeira em torno da estrela, permitindo que a luz se escape de forma a iluminar uma cavidade da nebulosa, esculpida por erupções anteriores, cuja forma lembra um cone (ver imagem no quadro F).

Esta erupção parece vir na sequência de uma outra, agora identificada como tendo ocorrido em 1966 através da comparação com observações dessa altura. De facto, consultando antigas placas fotográficas da mesma região, os astrónomos descobriram indícios de que esta estrela terá sofrido uma erupção em 1966, tendo depois enfraquecido o seu brilho. Sabe-se ainda tão pouco acerca deste tipo de fenómenos, que é impossível prever a duração desta fase de erupções ao longo do processo de formação de uma estrela de pequena massa, como o nosso Sol
Sol
O Sol é a estrela nossa vizinha, que se encontra no centro do Sistema Solar. Trata-se de uma estrela anã adulta (dita da sequência principal) de classe espectral G. A temperatura na sua superfície é aproximadamente 5800 graus centígrados e o seu raio atinge os 700 mil quilómetros.
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Fonte da notícia: http://www.gemini.edu/project/announcements/press/2004-6.html